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Daniel Gros 25 de Março de 2015 às 20:00

Porque a deflação é boa para a Europa

Na economia global dos nossos dias, não há preço tão importante como o do petróleo. Todos os dias são produzidos (e consumidos) mais de 80 milhões de barris de crude, e uma grande parte dessa produção é comercializada internacionalmente. Assim, a queda acentuada do preço do petróleo - de cerca de 110 dólares no ano passado para cerca de 60 dólares actualmente - está a permitir a poupança de centenas de milhares de milhões de dólares aos importadores de petróleo. Para a União Europeia e Estados Unidos, os ganhos decorrentes dessa queda de preços equivalem a cerca de 2 a 3% do PIB.

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Para a Europa, os benefícios do petróleo barato poderão crescer ao longo do tempo, porque os contratos de fornecimento de gás a longo prazo estão, em grande medida, indexados ao preço do petróleo. Isto representa uma outra vantagem para a Europa, onde os preços do gás natural eram, até há pouco tempo, muito mais elevados do que nos Estados Unidos, que têm beneficiado da energia de xisto mais barata.

 

Contudo, muitos especialistas argumentam que o petróleo barato também tem um lado negativo, porque exacerba as tendências deflacionárias nos países avançados, que já parecem ter caído na armadilha do baixo crescimento. De acordo com esta perspectiva, a queda acentuada dos preços do petróleo vai tornar ainda mais difícil para os bancos centrais desses países alcançarem a taxa de inflação anual de 2% que a maioria fixou como objectivo do seu mandato de estabilidade dos preços.

 

A Zona Euro, em particular, parece estar em perigo, já que os preços estão a cair pela primeira vez desde 2009. Diz-se que esta deflação é má porque torna ainda mais difícil para os devedores pagarem o que devem - especialmente nas economias problemáticas da periferia da Zona Euro como a Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha.

 

Mas esse receio é infundado, porque se baseia num mal-entendido. O que importa para a capacidade do serviço da dívida é o rendimento dos devedores, e não o nível geral de preços.

 

Com os preços do petróleo a cair, o rendimento real das famílias (ajustado pela inflação) deverá aumentar, porque não têm que gastar tanto dinheiro em combustíveis e aquecimento. Preços mais baixos do petróleo facilitam a vida das famílias altamente endividadas nos Estados Unidos ou na periferia da Zona Euro – e não o contrário. A queda dos preços no consumidor deve, portanto, ser vista como um bom sinal.

 

A maioria das empresas também vai beneficiar de menores custos de energia, melhorando a sua capacidade de pagar as suas dívidas. Isto também é particularmente relevante na periferia da Zona Euro, onde o sector não financeiro acumulou demasiadas dívidas durante o boom de crédito que antecedeu a crise financeira global de 2008. Além disso, embora a maioria das poupanças decorrentes da queda dos custos da energia possam, inicialmente, traduzir-se em maiores lucros, ao longo do tempo a concorrência vai forçar as empresas a transmitir parte desses ganhos excepcionais em forma de preços mais baixos ou salários mais altos.

Esta é outra consequência importante do petróleo barato: preços mais baixos tornam mais difícil calcular o ponto em que a pressão salarial se torna inflacionária. Uma vez que os salários podem aumentar em maior medida sem alimentar a inflação, a Reserva Federal dos Estados Unidos poderia sentir-se inclinada a atrasar a subida dos juros – algo que se espera que aconteça no verão.

 

As finanças públicas também devem beneficiar da deflação proporcionada por preços mais baixos do petróleo. As receitas estatais dependem do valor da produção nacional, não só do consumo. Embora os preços mais baixos do petróleo deprimam os preços no consumidor, deveriam impulsionar a produção e o PIB global.

 

Sem grandes variações nos preços das matérias-primas, o índice de preços no consumidor evolui juntamente com o deflator do PIB (o deflator de preços para toda a economia). Mas isso não vai acontecer este ano, porque os preços no consumidor estão a cair, enquanto o deflator do PIB (e o PIB nominal) continua a aumentar. Isso deve proporcionar receitas sólidas aos governos, o que é uma boa notícia para os Estados altamente endividados do mundo industrializado, mas particularmente para a periferia da Zona Euro.

 

A queda dos preços (no consumidor) na Zona Euro deve ser vista como um desenvolvimento positivo para todos os importadores de energia. A periferia da Zona Euro, em particular, pode esperar uma combinação ideal de taxas de juros baixas, uma taxa de câmbio favorável do euro e um aumento dos rendimentos reais como resultado do petróleo barato. Num ambiente deflacionário, os preços mais baixos do petróleo dificultam a tarefa do Banco Central Europeu de alcançar a sua meta de inflação próxima de 2%. Na realidade, os preços mais baixos do petróleo representam um benefício para a Europa - especialmente para os países que enfrentam maiores dificuldades.

 

Daniel Gros é director do Centro de Estudos Políticos Europeus

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.
www.project-syndicate.org

Tradução: Rita Faria

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