Leonel Moura
Leonel Moura 12 de novembro de 2015 às 19:55

Porque estamos em 2015

Questionado porque escolheu tantas mulheres para o seu Governo, Justin Trudeau, recentemente eleito primeiro-ministro do Canadá, respondeu: porque estamos em 2015.

O mesmo se pode dizer do acordo à esquerda. O que durante muito tempo foi impensável hoje é não só possível como desejável. Fez-se. Porque estamos em 2015.

 

A direita não percebeu isto. Não percebeu a mudança sociológica que ela própria operou com a sua política brutal. Não percebeu que a sua política se tornou insuportável para uma maioria dos portugueses. Daí que não consiga passar deste interminável queixume, justificado por uma vitória que nunca o foi, uma matemática errada e o pouco apreço que o funcionamento da democracia lhe merece. Continuar a falar de vitória, quando a derrota foi consumada, é simplesmente patético. A direita perdeu as eleições. É uma minoria no Parlamento e no país. Desde terça-feira já não é sequer Governo de gestão, mas Governo demitido. É agora a oposição.

 

Não entendendo isto, insistindo na ficção, PSD e CDS colocam-se do lado de fora do debate que importa. Passam à condição de uma oposição intolerante que cria alguns problemas, sobretudo ruído mediático, mas não faz parte da solução. Ironia do destino, PSD e CDS arriscam a tornarem-se naquilo que se criticava no PC e no Bloco. Dizem mal de tudo e não se entendem com ninguém.

 

Portugal mudou muito nestes últimos dias.

 

A primeira consequência desta mudança é o regresso em força da política. Nos últimos anos fomos dominados pela tirania dos mercados. As pessoas, a sociedade no seu conjunto, a própria soberania do país, foram totalmente desvalorizadas. Interessava acima de tudo agradar aos mercados. Como se Portugal fosse uma espécie de apartado, um "offshore" deserto, sem gente. Com a esquerda recolocam-se as pessoas no centro da atividade política. As suas expetativas, os seus direitos, a ambição de vida melhor.

 

O regresso da política trouxe também consigo uma nova dignidade para o Parlamento. Desacreditado pela irrelevância que a maioria absoluta da direita lhe conferiu, volta agora a ser o centro do debate político e partidário. Os portugueses vão seguir com maior atenção o que se passa no Parlamento. Porque é das suas vidas que ali se trata. Vamos perceber o que está em causa, as dificuldades de se chegar a consensos, o que pode e não pode ser feito a cada momento.

 

Mais política significa menos espaço para os simplismos económicos, para os humores dos mercados, para a submissão a poderes não democráticos e alguns antidemocráticos, nomeadamente quando se trata de ingerência num país soberano.

 

Mais política anima a conversa no campo da esquerda precisamente porque é essa a sua natureza. Não será uma conversa fácil, algumas vezes tornar-se-á conflituosa, mas ao contrário do que por aí se diz também não será tão mau assim. Como é hábito, a direita, sem outros argumentos, acena com o medo. Os perigos do radicalismo à esquerda, a catástrofe económica que aí vem, mas acima de tudo a ideia de que o PS fica nas mãos do PC e do Bloco. É ridículo, nem sequer faz sentido. Apesar da metodologia seguida, acordos bilaterais, estão todos no mesmo barco. Numa análise fria diria mesmo que o único partido que ganharia com a queda do Governo, lá mais para diante, é o PS. Por uma razão simples. Para o deitar abaixo, PC e Bloco teriam de se aliar à direita. Quem se atreve a fazer isso na atual conjuntura?

 

Mas nem se chegará aí por uma outra razão. Nunca se viram tantos jovens deputados na esquerda. Não só no Bloco naturalmente, partido recente, mas também no PC e no próprio PS. A renovação do pessoal político, há muito reclamada, finalmente operou-se. Ora para estes jovens as antigas questiúnculas ideológicas dizem pouco. As suas posições são determinadas pela realidade, pelas ideias, pela ambição de gerar melhores condições de vida para os portugueses, pelo combate à miséria, pelo estado social, pelo conhecimento, pela cultura.

 

Insisto. A direita pode continuar com o choradinho da derrota e com os prenúncios da desgraça. Mas não lhe valerá de muito. A política da esquerda será incomparavelmente mais excitante.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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