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Opinião
Francisco Jaime Quesado 27 de Março de 2008 às 13:59

Porque é que Portugal não é igual a Espanha?

Portugal e Espanha compõem uma Ibéria que no quadro da União Europeia protagoniza o difícil compromisso entre uma periferia geográfica que o pragmatismo da globalização tem acentuado e um simbolismo de “articulação estratégica” com determinadas zonas (em

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Num mundo cada vez mais plano, onde os índices de crescimento são liderados pelas potências emergentes (China, Índia, Brasil, Rússia, entre outros) e a União Europeia se pauta por uma “estagnação doentia”, impõe-se um sentido de mudança urgente no aproveitamento dos “factores de competência distintiva” que os dois países têm à sua disposição.

Identidade para o Futuro

Na sociedade intercultural de Habermas em que cada vez mais nos movemos, a “identidade sociológica” que Unamuno tanto defendeu em relação a uma Espanha de forte sentido nacional deve ser internalizada como um elemento de diferenciação qualitativa no “long tail” que Chris Anderson tanto defende na sua “wired”. Ou seja, Portugal e Espanha, cada um à sua maneira, deverão ser capazes de sustentar na dinâmica competitiva das nações as sua “competências centrais” como factores de “concorrência positiva natural” e desta forma anular as “divergências estruturantes” impostas por uma periferia geográfica que a dinâmica europeia não tem conseguido apesar de tudo anular.

A afirmação dum “nacionalismo” global como imagem de marca duma capacidade de eficácia e criatividade tem sido o elemento de distinção operacional de Espanha um pouco por todo o mundo. Ciente das suas “vantagens competitivas”, mesmo que não validadas por Michel Porter, o país vizinho tem conseguido duma forma única assumir as fronteiras das suas capacidades endógenas, partilhadas pelos diferentes actores do tecido social (regiões Autónomas, Empresas, Universidades, Centros de Saber) e “marketizadas” sob uma imagem comum de identidade corporativa que de modo algum põe em causa as virtualidades da especificidade de cada território ou protagonista social. Espanha é assim claramente um “player” vitorioso no aproveitamento da “competência da nação” no quadro global.

Torna-se imperioso para Portugal saber ler os “sinais vitoriosos” que emanam do país ao lado. Não se trata de “convergência cultural” nem muito menos de “cumplicidade nacionalista”. As especificidades da marca portuguesa, nas suas múltiplas dimensões, são mais do que evidentes e têm a força duma história cultural  sustentada no tempo e no tecido social. O que importa é “agarrar” a atitude proactiva da afirmação positiva na concorrência global das nossas competências. Fazer da inovação, qualidade e criatividade a bandeira de afirmação de produtos, serviços, talentos, capazes de protagonizar o nem sempre fácil desafio da competitividade com todos aqueles que não olham a meios para dominar os lugares cimeiros da classificação global.
   
A aposta na diferença

Espanha protagoniza de forma sustentada a “ambição” da Modernidade num quadro de renascimento global das suas competências um pouco pelo mundo fora. Trata-se claramente dum acto de “cumplicidade colectiva” da sociedade espanhola, cabendo ao Estado a função de monitorização estratégica e de garantia das condições de enquadramento das operações dos agentes no terreno. Este “acto de mudança para o futuro” que marca a Espanha de hoje sente-se na vivência diária da sociedade espanhola, animada dum “sentido de oportunidade necessário” e é visível nos inúmeros “ratings” feitos internacionalmente pelas mais diversas organizações em relação ao nosso país vizinho. Uma “ambição” de Modernidade claramente partilhada entre Madrid e as diferentes Regiões Autónomas, numa lógica de equilíbrio estratégico que sustenta a visibilidade global do país.

Portugal não pode fugir à necessidade e oportunidade duma “ambição” própria. É essencial na moderna Sociedade do Conhecimento que Portugal perceba de forma clara a mensagem de diferença que vem do lado e sustente um compromisso claro ao nível da sociedade civil quanto aos objectivos para o futuro. Assumidas as diferenças na matriz social, evidentes do ponto de vista sociológico, não fica mal a Portugal entender como oportuna e imperiosa a mensagem de resposta positiva que vem de Espanha. Afirmar as competências específicas com uma marca própria é o desafio essencial da nova modernidade que atravessa as civilizações neste novo quadro global.
  
O Papel das Regiões

Um dos factores com maior contributo nos últimos anos para a consolidação do “capital estratégico” das relações entre Portugal e Espanha reside na dinâmica das relações económicas e culturais de nível transfronteiriço protagonizadas pelos mais diversos actores (municípios, universidades, empresas, entre outros) através dos mais variados projectos. Trata-se de forma inequívoca de um “diálogo” único entre aquilo que de facto constitui a matriz estruturante das competências das regiões dos dois países e donde têm emergido (e poderão continuar a emergir) verdadeiras plataformas com capacidade de projecção global.

De entre as inúmeras experiências em curso, destacaria, pela dimensão de inovação lhe associada e qualificação dos protagonistas envolvidas, todo o trabalho feito ao longo dos últimos anos no sector automóvel entre o Norte de Portugal e a Galiza. Trata-se, em boa verdade, duma verdadeira “acção estruturada” entre os Centros de Competência das duas regiões, com particular destaque para o CEIIA (Centro de Excelência e Inovação na Indústria Automóvel) e o CTAG (Centro Tecnológico do Automóvel da Galiza) e que fez despertar a região nortenha para a oportunidade e desafio estratégico levantado pelas dinâmicas produzidas pelo sector automóvel.

A contextualização territorial da relação com Espanha não pode nem deve ser perdida, devendo antes de mais configurar-se como um “exemplo estruturante” do que deve ser a aposta numa Mudança de Agenda para uma verdadeira Agenda de Mudança nas relações entre Portugal e Espanha.

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