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Eduardo Moura emoura@mediafin.pt 15 de Junho de 2005 às 13:59

Porque se dobram diante de Cunhal?

Morreu uma rocha. Portugal dobra-se diante do homem que numa noite de tortura ficou com todo o cabelo branco. Rende-se ao homem que suspendeu a guerra civil, na noite do 25 de Novembro de 1975, quando mandou os comunistas largar as metralhadoras e regress

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Morreu o leninista que não chegou a ser estalinista. Aquele que queria a ditadura do proletariado e ao mesmo tempo parecia temê-la. Jamais saberemos se por convicção se por calculismo. O comunista que condenou os assaltos à embaixada e ao consulado de Espanha e, em pleno PREC, combatia o aventureirismo esquerdista do PCP e ordenava a resistência pacífica aos assaltos às sedes comunistas. Que antes do 25 de Abril condenava o recurso ao terrorismo como forma de luta contra o fascismo. Morreu o ódio de estimação dos estalinistas, como Durão Barroso entre dezenas de outros que agora estão no poder, que achavam Álvaro Cunhal um revisionista mole incapaz de pôr Portugal a ferro e fogo.

Morreu o «culpado» das loucuras de 1975, embora, o mais das vezes, ele tenha sido tanto o seu tónico como seu mentor.

Morreu a cassete. O discurso repetitivo de argumentos repetitivos, um modo de formular as questões e de fugir às perguntas, uma forma de falar que ainda hoje se regista em muitos dirigentes do PCP.

O Mundo mudou e Álvaro Cunhal não mudou. Sobreviveu ao seu tempo como uma relíquia. Não mudou de roupa, como tantos outros, mas sabia ajustar-se. Por isso, impôs ao PCP o voto que elegeu Mário Soares contra Freitas do Amaral, mal sabendo que este chegaria ao poder pela mão socialista. De facto, o passado é inútil como um trapo, como disse Eugénio de Andrade.

Morreu também o último neo-realista anti neo-realista. Um pintor e um escritor competente, embora limitado a uma estética, mas filosoficamente um esteta que impediu o PCP de se fechar no neo-realismo.

Morreu o homem que nunca perdeu o brilho dos olhos e tinha, verdadeiramente, um extraordinário número de amigos.

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