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Rui A. S. Neves 07 de Dezembro de 2005 às 15:21

Porter e o choque tecnológico

Na última década o problema do desenvolvimento económico português tem sido equacionado em termos de um dualismo simplista, quase maniqueísta, de acordo com a nossa melhor tradição de superficialidade. Assim como se arrumou à direita o "rigor" e à esquerd

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Na última década o problema do desenvolvimento económico português tem sido equacionado em termos de um dualismo simplista, quase maniqueísta, de acordo com a nossa melhor tradição de superficialidade. Assim como se arrumou à direita o "rigor" e à esquerda a "estratégia", Porter foi classificada à direita enquanto o "esforço tecnológico" foi etiquetado como sendo de esquerda.

O desenvolvimento económico não resulta de um qualquer "passe" de magia (tipo "H. Potter e os Adversários da Mudança"). É um processo económico e social dinâmico e complexo, resultado da interacção entre os factores de competitividade de uma economia e o contexto económico e social em que esta evolui, mediado pela "cultura" do sistema decisor.

Entre as condicionantes estruturantes do processo é importante destacar a capacidade das elites políticas e empresariais (que são, simultaneamente, um dos factores de competitividade) para orientar o processo, ie, a sua capacidade para "assumir riscos" e definir claramente objectivos, "modernos", num horizonte alargado.

Além de "objectivos claros e mobilizadores", o processo é condicionado pela correcta selecção dos sectores de actividade sobre os quais se vai "construir o futuro", pela adopção de processos adequados de "mudança" (escolhas tecnológicas) e pela quantidade e qualidade dos "recursos" que for possível mobilizar (humanos, financeiros e de informação).

E é neste ponto que Porter e o Plano Tecnológico se encontram. Porter diz-nos que o processo de desenvolvimento se deve construir, em primeiro lugar, a partir do que já sabemos fazer, ie, a partir das actividades que dominamos e nas quais detemos alguma vantagens competitivas. Diz também que os esforços realizados em áreas "novas", devem ser cuidadosamente avaliados, pois têm associado um risco empresarial mais elevado (e, consequentemente, uma eficiência marginal do capital mais baixa). Finalmente, explica os processos de crescimento económico pela estruturação da economia em torno das actividades "competitivas", os tão falados "cluster’s", núcleos estruturantes de eficiência empresarial e de evolução tecnológica (e, para o problema em análise, a estrutura adequada para a materialização do "choque tecnológico").

Assim, e do ponto de vista do processo de desenvolvimento, Porter e o Plano Tecnológico, longe de se oporem, completam-se e fazem parte de um conjunto, mais vasto, de condições que têm de ser asseguradas, em simultâneo, para garantir um sentido estratégico à dinâmica da economia.

Sem uma visão clara do papel que, num horizonte de 10 a 15 anos, se pretende para Portugal (no contexto da UE e da economia global), sem uma identificação das actividades "a apostar" e sem os meios adequados à dimensão do problema, é pouco provável que o Plano Tecnológico possa dinamizar um qualquer processo de desenvolvimento. Caso alguma destas condições esteja ausente, estaremos apenas perante um processo de "ajustamento/adaptação" às condições de mercado que, muito provavelmente, servirá apenas para reforçar as condições de subalternidade e dependência económica.

Contra algumas ilusões "voluntaristas", convém ter em atenção que os "cluster’s" não são uma construção racional, ie, a sua "concretização" não se decide por decreto. De facto, são uma consequência da interacção entre o tecido empresarial e o mercado que tende a fazer coalescer, em determinadas regiões e em torno de actividades competitivas, um conjunto de indústrias correlacionadas, estruturando-as em termos de uma maior eficiência global na utilização dos recursos.

Se não é possível "criar cluster’s", é possível, no entanto, promover e reforçar as condições da sua estruturação (desde que ligados a actividades competitivas), sendo este um dos objectivos da política económica. Esta é, sem dúvida, uma questão estratégica no nosso país, em que as empresas têm uma dimensão muito pequena e as redes de colaboração empresarial são pouco densas e demasiado curtas.

O êxito deste esforço de política económica assente na "possibilidade" acrescida de desenvolvimento que pode resultar da interacção, no interior dos "cluster’s", entre um tecido empresarial fragmentado e "uma pulsão inovadora" proveniente do mercado. Ora, no caso português, esta possibilidade pode ser limitada por importantes factores de amortecimento.

Com efeito, o empresariado português é ainda um "empresário/mão de obra barata", em sintonia com a fase recente da economia em que desenvolvimento equivalia a "produzir mais/utilizar mais recursos/empregar maior volume de mão de obra". As modernas economias, nesta fase de globalização, são economias baseadas em "produzir melhor/utilização optimizada de recursos/maior eficiência", e exigem empresários cuja característica fundamental seja a aceitação do risco, ou melhor, a capacidade para "explorar e optimizar o risco". Em Portugal, a "migração" para um novo modelo de empresário continua, no essencial, por fazer.

O "risco" empresarial em referência tem a ver, em muitas áreas de negócio, com o aceitar "entrar" na cadeia de valor muito a montante, no início do processo, antecipando-se mesmo ao mercado. Inovação e I&D passam a ser as áreas centrais dos caminhos do sucesso empresarial, o que constitui um enorme obstáculo para os empresários nacionais já que a dimensão típica da empresa portuguesa, mesmo atingindo níveis de I&D da ordem dos 20% do volume de negócios, apenas é capaz de gerar montantes absolutos de I&D (em milhões de euros) insignificantes para as exigências desta actividade (já que as actividades de I&D são fortemente marcadas por dimensões críticas e por efeitos de escala).

A fonte alternativa de inovação, o sistema universitário e científico, continua a viver olhando para si próprio, ainda muito alheado do mundo empresarial de quem o separa, especialmente, uma cultura universitária predominantemente "anti-business". As numerosas incubadoras e sociedades de capital semente e capital de desenvolvimento que, nas últimas décadas, cresceram em torno das diversas universidades não serviram para apoiar o lançamento de empresas inovadoras mas, quase exclusivamente, para diversificar as fontes de financiamento da actividade académica associada, alimentando a ineficiência económica do sistema.

Ao procurar lançar as semente de políticas de desenvolvimento que tenham em conta as soluções adoptadas por outros países com problemas idênticos ao nosso, convém procurar, com atenção e profundidade, para identificar correctamente semelhanças e diferenças, não esquecendo que o "benchmarking" não é, em si mesmo, uma estratégia de desenvolvimento mas apenas um degrau no processo da sua definição.

Com efeito, as modernas teorias da complexidade e da auto organização evidenciam a importância das condições inicias na dinâmica dos sistema complexos. Pequenas modificações nas condições iniciais podem conduzir a situações finais totalmente diferentes, isto é, a simples imitação do modelo de desenvolvimento de outros países não garante, necessariamente, que se venha a alcançar o mesmo sucesso, já que os processos de evolução partiram de situações (quer a economia quer o contexto em que ela se movimenta) claramente distintos.

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