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António Mateus antoniomateus@hotmail.com 20 de Junho de 2006 às 13:59

Povo poeira

Chamam-lhes o «povo-poeira», gente que sonhava por melhores dias após a exploração colonial e vive agora um pesadelo sob o governo do presidente zimbabueano, Robert Mugabe Um relatório das Nações Unidas denuncia a chamada «Operação Murambatsvina» (Operaçã

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Passa agora um ano que o executivo de Mugabe investiu contra os centenas de milhares de residentes de bairros de lata, nas periferias urbanas, sob pretexto de combater focos de crime e de doença.

Mas num país onde se expropriou e devastou a agricultura industrial pertencente a brancos, para suposta redistribuição entre os negros mais pobres, aquela investida radica noutras direcções.

Principalmente quando tem sido nas periferias urbanas pobres - como as arrasadas pela «Operação limpeza» – que a oposição ao governo de Mugabe ganhou os seus maiores apoios.

«A operação foi lançada de forma indiscriminada e injustificada, com indiferença pelo sofrimento humano e, em muitos casos, desrespeito às normas legais nacionais e internacionais» – denuncia o relatório da ONU.

Enquanto isto se processava, Mugabe participava em Roma numa conferencia das Nações Unidas, onde proclamou a inexistência de fome no seu país e responsabilizou os críticos ao seu regime pelos problemas do Zimbabué.

Mas entre os milhares de despojados, contam-se trabalhadores rurais que foram expulsos e lançados para o desemprego quando chamados «antigos combatentes» invadiram as fazendas pertencentes a brancos.

Das mais de quatro mil que há cinco anos alimentavam o país e garantiam ainda largas receitas de exportações, apenas cerca de 200 funcionam agora de forma regular. O resto transitou para quadros do partido no poder (ZANU-PF)ou foi abandonado após pilhagem.

Apenas uma fracção residual foi efectivamente redistribuída por pequenos agricultores que a utilizam para subsistência familiar.

O resultante descalabro era previsível. Para este ano, a Associação de Agricultores zimbabueanos projecta uma produção de apenas 200 mil toneladas, ou seja, o equivalente ao consumido no país em apenas um mês.

O governo zimbabueano mantém apesar disso um controlo de ferro sobre os donativos alimentares internacionais e espartilha as actividades das diversas agencias humanitárias das Nações Unidas e das ONG.

Tudo em nome do controlo político e do que sustenta serem canais de apoio à oposição e de contestação ao seu regime.

Nesta «lógica», o «povo-poeira» que vegeta entre os destroços dos bairros-de-lata arrasados, são vistos como «ratos» incubadores das mais diversas maleitas do espírito e do corpo, num país onde a SIDA e a fome matam mensalmente aos milhares.

Para se ter uma ideia do efeito combinado destes dois factores, a esperança de vida no Zimbabué é actualmente de menos de 37 anos, segundo indicadores das Nações Unidas.

E a tendência é de agravamento.

Apesar disso, a imprensa estatal insiste que tudo não passa de uma campanha de desinformação orquestrada pelo Mundo Ocidental após Mugabe ter responsabilizado George W Bush e Tony Blair pelos problemas vividos no seu país.

A uma semana da Cimeira da União Africana, agendada para Banjul de 25 de Junho a 2 de Julho, os responsáveis máximos das Nações Unidas e da África do Sul exploram uma nova frente para resolução da crise zimbabueana, que se reflecte na região mais ricas do Mundo em matérias-primas.

Ciente do fracasso da chamada política de «diplomacia discreta» que até aqui adoptou para lidar com os problemas no país vizinho, o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, quer agora envolver neste processo, de forma mais activa, as Nações Unidas.

Só que Mugabe é uma velha raposa dos meandros da política mundial e sabe que só tem a perder com o envolvimento formal das Nações Unidas em qualquer processo reformista do seu país. Particularmente se barbaridades como a «operação Murambatsvina» caírem sob alçada do Conselho de Segurança.

Na data em que terminar a Cimeira da UA entra em funções o Tribunal Africano de Direitos Humanos, abrindo caminho ao fechar de olhos «solidário» até aqui prevalecente entre os governos do continente, a barbaridades cometidas sob instrução ou conivência oficial.

Nesse dia, o «povo poeira» deixará de ser apenas... poeira inerte. Cujo problema se resolve, para quem vive fora do país, virando-lhe as costas.

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