Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 03 de maio de 2017 às 21:12

Procurar as razões 

Governar organizações internacionais não é, obviamente, nem pouco mais ou menos, ainda mais nos tempos de hoje, só gerir. É, em grande parte, construir futuro sustentável.

Passar uns dias em Londres permite observar realidades que ajudam a colocarmo-nos um pouco no lugar dos cidadãos do Reino Unido. Londres está "cheia" e é absolutamente impressionante a quantidade de raças, etnias, religiões que se veem a toda a hora na rua, por todo o lado da intensa metrópole de 12 milhões de pessoas. O que se passa hoje em dia nalgumas poucas zonas de Lisboa e do Porto e Gaia, que têm muitos turistas nas ruas e, por vezes, como no Chiado, mais do que portugueses, é uma pequeníssima amostra do que se passa em Londres a uma escala muitíssimo maior. Mesmo nas zonas turisticamente pouco movimentadas, a capital do Reino Unido tem cidadãos de todos os cantos do mundo. Chegar a Londres a qualquer dos aeroportos, mas principalmente a Stansted, que é o aeroporto das "low-cost", é logo bem elucidativo. Às 23h são filas e filas até se chegar ao posto da alfândega em que se mostra o passaporte ou o cartão do cidadão. Há algumas vantagens para quem tem passaporte eletrónico, mas mesmo assim tem de se esperar um tempo considerável. Logo aí se vê a variedade e a diversidade de pessoas que entram todos os dias no Reino Unido. Naturalmente, uma coisa são as entradas turísticas, que são muitas, constantes e permanentes, outra são as entradas à procura de residência de trabalho.

 

Se nós, aqui em Lisboa, por exemplo, já reclamamos contra a presença excessiva do fenómeno turístico na vida da cidade, imagine-se o que não sentirão os cidadãos de Londres, que há anos e anos têm no seu perímetro urbano a viver comunidades enormes de asiáticos, africanos e cidadãos de outros cantos do mundo. Quem esteja, como eu estive, algumas horas na fila, por exemplo, para um museu, perceberá facilmente o que é, além dos números impressionantes, a intensidade dos fluxos turísticos naquela cidade. Pode-se, pois, admitir que os londrinos, os ingleses em geral, sintam uma considerável saturação, que queiram resguardar e proteger um pouco mais a sua terra para os que são naturais de lá. É desagradável, é pouco fraterno, é pouco solidário, mas temos de procurar compreender as razões de fenómenos sociais e políticos que levam a estas novas realidades protecionistas e isolacionistas. Na verdade, fiquei estes dias com a sensação de que existe naquelas paragens já alguma desorganização no modo de lidar com esta procura massiva daquelas terras. Este fim de semana que passou tinha um feriado especial, tinha muito movimento, mas parece dificilmente contornável este movimento de um certo retomar de distância do Reino Unido face ao resto do mundo. Será economicamente inteligente? Será socialmente seguro? Será politicamente eficaz? A história dos povos é feita também destes momentos, em que se encerra um ciclo para dar lugar a outro de contornos ainda, em grande parte, desconhecidos. O que não vale a pena é ignorar as realidades, e aquilo que se vê estar a acontecer, nomeadamente na Europa Ocidental e nos EUA, aconselha a que as organizações internacionais assumam, cada vez mais, a aposta no desenvolvimento dos territórios e países de origem destes movimentos migratórios. Não há outra solução, além desta de tornar o mundo mais equilibrado. Não são palavras de circunstância nem discurso político, mas uma exigência de bom senso de capacidade de liderar a organização das sociedades. Governar organizações internacionais não é, obviamente, nem pouco mais ou menos, ainda mais nos tempos de hoje, só gerir. É, em grande parte, construir futuro sustentável.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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