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António Moita 15 de Maio de 2020 às 20:50

Quando os políticos se esquecem da realidade

Mário Centeno é insubstituível. Claro que não. Ninguém é. Mas a importância, ou a relevância, da capacidade e do mérito individual de quem em cada momento desempenha funções públicas não pode ser menosprezada.

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Depois de um período de acalmia política, eis que na passada semana regressou o vírus da guerrilha partidária a propósito de tudo e de nada. Desta vez, nem o Presidente da República escapou. Parece que basta apenas que surja na população um sentimento de alívio das medidas de confinamento para que os nossos políticos se esqueçam do grave momento em que vivemos e da situação económica desesperada em que já se encontram muitas famílias e empresas.

Dirão os maledicentes que a classe política vive num mundo à parte e que tendo o seu vencimento integralmente garantido nem se lembram que muitos dos seus compatriotas ficaram desempregados ou perderam parte do rendimento. Eu não chego a tanto. Mas posso afirmar que os comportamentos a que assistimos são, no mínimo, irresponsáveis e demonstram bem a incapacidade dos nossos líderes, no Governo ou na oposição, de distinguir de forma clara e duradoura entre aquilo que são os interesses de toda uma comunidade e os pequenos ganhos de popularidade que ocasionalmente conseguirão extrair de um momento de fraqueza do adversário.

 

Deitar abaixo o presidente português do Eurogrupo seria uma absurda excentricidade.


O episódio Mário Centeno é disso bem revelador. Independentemente das falhas de comunicação interna no Governo ou da visão que cada um tem sobre a relevância política para um país endividado e dependente como Portugal de cumprir escrupulosamente os seus compromissos contratuais, a verdade é que todos se esqueceram de que o momento é de assegurar estabilidade nas decisões governativas. A inevitável revisão orçamental está a ser preparada e mudar agora a equipa que coordena este trabalho seria uma lamentável originalidade. A negociação na União Europeia do programa de recuperação económica pós-pandemia está em curso e marcará a entrada, ou não, de Portugal no reino das trevas. Deitar abaixo o presidente português do Eurogrupo seria uma absurda excentricidade. Sabemos que as necessidades de financiamento do Estado ainda em 2020 para liquidar dívida pública existente são de muitos milhares de milhões de euros e ao seu custo, que já está a subir, não serão indiferentes fenómenos como os de instabilidade governativa logo na área das finanças. Provocá-la seria uma anormalidade que pagaríamos bem caro a curto prazo.

Mário Centeno é insubstituível. Claro que não. Ninguém é. Mas a importância, ou a relevância, da capacidade e do mérito individual de quem em cada momento desempenha funções públicas não pode ser menosprezada. É este sentido de Estado e de ponderação das consequências de gestos irrefletidos ou de afirmações equívocas e produzidas no tempo errado que se espera dos nossos líderes políticos. Neste caso isso não aconteceu e internamente provocou estragos. Até onde irão as ondas de choque ainda não sabemos.

Mas seria bom para Portugal que todos arrepiassem caminho e que conseguissem prolongar o pacto de não agressão que foram capazes de respeitar até ao momento em que perceberam que o adversário, no caso o primeiro-ministro, tinha sido imprudente. Pelo menos até ao dia, provavelmente não muito distante, em que o ministro das Finanças decida abandonar o Governo. Espero que nessa altura o trabalho que agora está a ser feito esteja concluído. E que o nome de Centeno fique na nossa memória. Pelo que conseguiu e pelo que não permitiu que acontecesse. Seria um ótimo sinal para todos nós.

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