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Mário Negreiros 15 de Junho de 2005 às 13:59

Quando o gueto vai à praia?

Mesmo que torto, mesmo que enganado, mesmo que burro, o facto é que há um sentido reparador, indemnizatório, revanchista ou, de qualquer outra maneira, reactivo à injustiça no «arrastão» de Carcavelos. Aquilo foi mais do que um conjunto de ladrões a agir

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Foi um episódio colectivo, foi a expressão de ódio de um grupo social por outro grupo social.

Ao «arrastão» em si mesmo reaja-se com polícia, sim, muita polícia, polícia ostensiva, preventiva, dissuasora e, sempre que preciso, implacável e, sempre que possível, cordata e rigorosa no cumprimento das exigências de respeito a que a Polícia está obrigada. Mas o «arrastão» é mais do que o «arrastão». É também o que está por trás dele. É o ressentimento dos que moram nos guetos contra o desprezo dos que moram nos condomínios – cada um, seja na linguagem, nas roupas ou nos muros e nos sistemas de vigilância electrónica, a isolar-se do outro, a demarcar-se, a apartar-se. E quanto a isso a Polícia pouco ou nada pode fazer.

Sem chegar a entrar em considerações éticas, políticas ou morais, mesmo que nos restrinjamos ao mais frio pragmatismo, só haveremos de ver uma maneira de enfrentar, com a profundidade que o assunto merece, aquilo de que o «arrastão» é apenas a mais exuberante expressão. O problema é de exclusão e, numa perspectiva que não se reduza à histeria imediatista habitualmente imposta por esse género de episódios, a solução só pode ser incluir.

Fartei-me de ouvir pessoas do lado «de cá» a dizer que a solução era mantê-»los» no lado «de lá» (os meios para alcançar esse objectivo variavam mas iam da selecção, pela cor da pele, de quem podia ou não entrar na praia até à pura e simples suspensão dos serviços de transporte público nos fins-de-semana e feriados). Mas (repito: sem chegar a entrar em considerações éticas, políticas ou morais, numa perspectiva meramente estratégica) o facto é que dois países nunca puderam conviver num só, duas cidades nunca puderam conviver numa só, os «de cá» e os «de lá» acabarão, mais cedo ou mais tarde, com maior ou com menor violência, por entrar em conflito, e as «limpezas» sempre se têm revelado (considerações morais à parte) ineficazes.

Não é preciso pretender uma sociedade sem classes. Trata-se simplesmente de querer uma sociedade sem guetos. E é evidente que a responsabilidade maior para impedir a formação de guetos (em regra quem está nos guetos preferia estar fora) é dos «de cá».

PS: Se não todos, quase todos os «arrastadores» de Carcavelos eram pretos (livrem-me de usar a terminologia pseudo-correcta «indivíduo de raça negra», que tresanda a desprezo) e eram pobres. Os burros são lineares e o linear aí é pensar que os pobres são suspeitos, os pretos suspeitíssimos e os pretos pobres (em Portugal, quase todos) só podem ser culpados. Não estamos tão longe dessa asneira quanto fazem supor os discursos politicamente correctos pronunciados para as grandes plateias.

PPS: Compreender os «arrastões» não significa tolerá-los.

PPPS: Tenho de comprar 10 mil garrafas para as encher com o vinho feito no ano passado. Uma empresa (espanhola) já me enviou cinco amostras. O vendedor de outra empresa (portuguesa) a quem telefonei para tentar combinar uma visita à fábrica para ver as garrafas, respondeu-me que, por ser o vinho do Douro, não era com ele, mas com o colega do norte. Em Portugal o espírito burocrático está longe de ser exclusividade da função pública.

PPPPS: Carros, rua!

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