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Anatole Kaletsky 01 de Maio de 2016 às 20:30

Quando tudo se desmorona

A mensagem da revolução populista de hoje é que os políticos devem rasgar os seus manuais de regras pré-crise e incentivar uma revolução no pensamento económico. Se os políticos responsáveis recusarem fazê-lo, alguma "horrível besta, chegada a sua hora" o fará por eles.

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Em todo o mundo, há um sentido do fim de uma era, um presságio sobre a desintegração das sociedades anteriormente estáveis. Nas linhas imortais do grande poema de W. B. Yeats, "A Segunda Vinda": 

"Tudo se desmorona; o centro cede
Uma total anarquia abate-se sobre o mundo…
Aos melhores falta-lhes convicção, enquanto os piores
Estão cheios de uma intensidade apaixonada
Que horrível besta, chegada a sua hora,
Se arrasta até Belém para nascer?"

Yeats escreveu estas linhas em Janeiro de 1919, dois meses depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Ele sentia instintivamente que a paz daria lugar, em breve, a horrores ainda maiores.

Quase 50 anos depois, em 1967, a ensaísta americana Joan Didion escolheu "Slouching Towards Bethlehem" como título da sua colecção de ensaios sobre as desagregações sociais do final dos anos 1960. Nos 12 meses seguintes à publicação do livro, Martin Luther King e Robert Kennedy foram assassinados, cidades do interior dos Estados Unidos explodiram em tumultos e os estudantes franceses saíram às ruas para protestar dando início à rebelião que derrubou o Presidente Charles de Gaulle, um ano depois.

Em meados dos anos 1970, a América tinha perdido a guerra do Vietname. As Brigadas Vermelhas, a Weather Underground, o Exército Republicano Irlandês (IRA), e os terroristas neofascistas italianos levavam a cabo atentados nos Estados Unidos e na Europa. E a destituição do Presidente Richard Nixon tinha transformado a democracia ocidental numa chacota.

Mais 50 anos se passaram, e o mundo está novamente assombrado por temores relacionados com o fracasso da democracia. Podemos retirar algumas lições desses períodos anteriores de dúvidas existenciais?

Nas décadas de 1920 e 1930, como no final dos anos 1960 e 1970, e hoje novamente, o desespero em relação à política estava ligado à desilusão com um sistema económico fracassado. No período entre guerras, o capitalismo parecia condenado por desigualdades intoleráveis, deflação e desemprego em massa. Nos anos 1960 e 1970, o capitalismo parecia estar a colapsar pelas razões opostas: a inflação e a reacção por parte dos contribuintes e dos interesses empresariais contra as políticas de redistribuição dos governos.

Assinalar este padrão de crises recorrentes não é alegar que alguma lei da natureza dita um quase colapso do capitalismo global a cada 50 ou 60 anos. É, no entanto, reconhecer que o capitalismo democrático é um sistema em evolução que responde a crises transformando radicalmente tanto as relações económicas como as instituições políticas.

Assim, devemos olhar para a turbulência de hoje como uma resposta previsível à quebra de um modelo específico do capitalismo global em 2008. A julgar pela experiência passada, um resultado provável poderia ser uma década ou mais de exame de consciência e instabilidade, conduzindo eventualmente a uma nova realidade política e económica.

Foi o que aconteceu quando Margaret Thatcher e Ronald Reagan venceram as eleições depois da grande inflação dos anos 1970, e quando se seguiu a grande inflação dos anos 1970, e quando o New Deal americano e as "horríveis bestas" do rearmamento europeu emergiram da Grande Depressão. Cada um desses eventos pós-crise foi marcado por transformações no pensamento económico e na política.

A Grande Depressão levou à revolução keynesiana na economia e ao New Deal na política. As crises inflacionárias dos anos 1960 e 1970 provocaram a contra-revolução monetarista de Milton Friedman, que inspirou Thatcher e Reagan.

Portanto, parecia razoável esperar que o colapso do capitalismo financeiro desregulado desencadeasse uma quarta mudança sísmica (Capitalismo 4.0, como lhe chamei em 2010) na política e no pensamento económico. Mas se o capitalismo global está realmente a entrar numa nova fase evolutiva, quais são suas características prováveis?

A característica definidora de cada estágio sucessivo do capitalismo global tem sido uma mudança na fronteira entre a economia e a política. No capitalismo clássico do século XIX, a política e a economia foram idealizadas como esferas distintas, com as interacções entre governo e empresas limitadas à captação (necessária) de impostos para aventuras militares e à protecção (nociva) de poderosos interesses velados.

Na segunda versão do capitalismo, a keynesiana, os mercados eram vistos com desconfiança, enquanto a intervenção do governo foi assumida como correcta. Na terceira fase, dominada por Thatcher e Reagan, estes pressupostos foram invertidos: o governo geralmente estava errado e os mercados tinham sempre razão. A quarta fase pode vir a ser definida pelo reconhecimento de que tanto os governos como os mercados podem estar catastroficamente errados.

Reconhecer tal falibilidade pode parecer paralisante – e o clima político actual parece reflectir isso. Mas reconhecer a falibilidade pode ser positivo, porque implica a possibilidade de melhoria na economia e política.

Se o mundo é demasiado complexo e imprevisível para os mercados ou governos alcançarem os objectivos sociais, então devem ser concebidos novos sistemas de controlos e contrapesos de modo que a política de tomada de decisões possa restringir os incentivos económicos e vice-versa. Se o mundo é caracterizado pela ambiguidade e imprevisibilidade, então as teorias económicas do período pré-crise - expectativas racionais, mercados eficientes e neutralidade monetária - devem ser revistas.

Além disso, os políticos devem reconsiderar a maior parte da superestrutura ideológica erguida em suposições do fundamentalismo de mercado. Isto inclui não apenas a desregulamentação financeira, mas também a independência do banco central, a separação de políticas monetárias e orçamentais, e o pressuposto de que os mercados concorrenciais não necessitam de intervenção do governo para produzir uma distribuição de rendimentos aceitável, impulsionar a inovação, fornecer as infra-estruturas necessárias e distribuir bens públicos.

É evidente que a nova tecnologia e a integração de milhares de milhões de trabalhadores adicionais nos mercados globais criaram oportunidades que deviam significar uma maior prosperidade nas décadas posteriores do que antes da crise. Mas em todo o lado, políticos "responsáveis" alertam os cidadãos sobre uma "nova normalidade" de crescimento estagnado. Não é de admirar que os eleitores estejam furiosos.

As pessoas sentem que os seus líderes têm instrumentos económicos poderosos que poderiam aumentar os padrões de vida. O dinheiro pode ser impresso e distribuído directamente aos cidadãos. Os salários mínimos poderiam ser aumentados para reduzir a desigualdade. Os governos podem investir muito mais em infra-estrutura e inovação, a custo zero. A regulação bancária poderia encorajar o crédito, em vez de o restringir.

Mas a implantação de tais políticas radicais significaria rejeitar as teorias que têm dominado a economia desde os anos 1980, juntamente com os arranjos institucionais baseados nelas, como o Tratado de Maastricht da Europa. Poucas pessoas "responsáveis" estão dispostas a desafiar a ortodoxia económica pré-crise.

A mensagem da revolução populista de hoje é que os políticos devem rasgar os seus manuais de regras pré-crise e incentivar uma revolução no pensamento económico. Se os políticos responsáveis recusarem fazê-lo, alguma "horrível besta, chegada a sua hora" o fará por eles.

Anatole Kaletsky é economista-chefe e co-chairman da Gavekal Dragonomics e autor do livro "Capitalism 4.0, The Birth of a New Economy".

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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