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Francesco P. Marconi 01 de Julho de 2010 às 12:08

Quatro bois corpulentos, oito porcos gordos, doze cabras robustas...

O que diria o leitor se começasse a ver à sua volta muitos investidores a comprar bolbos de uma flor rara, utilizada só para fins decorativos, por valores que poderiam ultrapassar os dois mil euros por cada unidade?

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Quatro bois corpulentos, oito porcos gordos, doze cabras robustas...
ou uma curta história das bolhas especulativas



O que diria o leitor se começasse a ver à sua volta muitos investidores a comprar bolbos de uma flor rara, utilizada só para fins decorativos, por valores que poderiam ultrapassar os dois mil euros por cada unidade? Se fosse o agente racional das economias clássicas, certamente responderia que não passavam de "extraordinárias desilusões populares e da loucura das multidões", ideia que teria plagiado ao título do livro publicado em 1841 por Charles Mackay, e onde o autor analisou uma das primeiras bolhas especulativas da história, a tulipomania, que dois séculos antes tinha invadido a Holanda. Os dois mil euros que referimos traduzem, em valor actual, uma curiosa lista de bens a trocar pela magnífica "Semper Augustus", uma espécie rara de tulipa, lista esta que, segundo Mackay, incluiria peças tão espantosas como quatro bois corpulentos, oito porcos gordos, doze cabras robustas, muitos alqueires de milho, trigo, e centeio, vinho, cerveja, queijo e uma infinidade de outros bens que omitimos. A questão é que, depois desta "loucura das multidões", a história continuou a rechear-se de bolhas especulativas que, quando olhadas à distância de poucos anos, ou até de poucos meses, se enquadram bem no título de Mackay.

Mas será que são uma segunda pele da economia e, mais ainda, será que afinal só têm aspectos negativos?

Nos Estados Unidos e no decorrer de um século falou-se de bolhas a propósito do telégrafo, dos caminhos-de-ferro, da queda do índice da Bolsa de Nova Iorque em 1929, das empresas da Internet, das recentes crises do imobiliário e dos mercados financeiros. A verdade é que, em resultado de todas elas, muitas pessoas perderam dinheiro, muitas empresas faliram e a economia viveu, e vive, situações difíceis. Mas, de certo modo, os excessos cometidos sempre fizeram avançar a economia. Será que sem eles o país teria tido uma excelente rede de telégrafo, infra-estruturas ferroviárias que constituíram um enorme impulso na vida económica, uma política da New Deal que fez recuperar a confiança nos bancos? Ou perguntamos até se, sem a bolha das empresas da Internet, o Google, a Amazon, o e-Bay, o Facebook, ou o You Tube seriam o que são hoje? Mesmo para a recente crise do "subprime", poderemos vislumbrar um aspecto positivo - de preço demasiado elevado concordamos - no repensar, por académicos e políticos, das teorias económicas clássicas, sob o ângulo de uma perspectiva interdisciplinar com parceiros como a psicologia ou a sociologia.

Mas a história das bolhas especulativas continua. Neste exacto momento, em que ainda pensamos em como sair desta situação de estagnação económica, novos movimentos se esboçam na economia mundial, que, porventura, serão as bolhas de que se falará nos anos mais próximos. Lucrativas e com valor social: mudar o mundo, salvar o planeta!

De facto, as preocupações com os preços dos combustíveis, a que se junta o problema do aquecimento global, fizeram emergir um novo mercado de energias alternativas. Muitos dos gurus que investiram em empresas da Internet deslocam-se agora para as energias alternativas, como por exemplo os conhecidos Bill Gates e Warren Buffet, e os talvez menos conhecidos Bill Gross, do Idealab, ou Ray Lane, do Oracle. Os números são esclarecedores. Desde 2009, os investidores colocaram 6 biliões de dólares nas energias alternativas e prevê-se que até 2018 o investimento cresça até aos 350 biliões. Os resultados, no entanto, tardam em chegar, pois até agora só 3,4% da energia nos Estados Unidos é de origem alternativa. Um investimento sólido ou uma bolha? A questão está em saber se o poder político e os investidores terão paciência para esperar este desenvolvimento lento ou se redireccionarão os seus capitais. Para já registam-se sinais de alguma impaciência como o de J.P. Morgan, que afirmou recentemente que seria melhor não tentar apanhar uma faca em plena queda, referindo-se ao mercado dos painéis solares.

Ainda no âmbito das tecnologias limpas, outras formas "imaginativas" começam a esboçar-se na Europa e nos Estados Unidos, onde o crescimento de um mercado de licenças de emissão de carbono tem sido galopante: paga-se não para possuir um certo objecto palpável, mas para que algo não seja libertado na atmosfera. As indústrias mais poluentes, como a química, a siderúrgica e os cimentos, compram licenças de emissão a projectos menos poluentes, em vez de diminuir as suas próprias emissões. Desde 2005 foram negociados 300 biliões de dólares em licenças com a mediação de grandes instituições financeiras como o Goldman Sachs, o Citibank e o Barclays. Mas um recentíssimo sinal de pânico no mercado das emissões surgiu há algumas semanas, quando duas empresas que se dedicam a negociar as licenças - a francesa BlueNext e a nórdica Nord Pool - suspenderam a comercialização por se ter tornado público que algumas licenças, que estavam a ser transaccionadas, já tinham sido usadas ilegalmente. A cotação de doze euros por tonelada de emissão de carbono desceu em poucas horas para um euro.

Mas afinal, se olharmos para o modo como funciona a economia, não será verdade que a única coisa pior do que uma nova bolha especulativa será a ausência dela? As bolhas podem ser, afinal, modos de direccionar investimentos maciços e de tentar inverter ciclos de queda. Na sua génese pode estar uma boa ideia - o desenvolvimento da Internet, a posse de casa própria, a salvação do planeta. E quer seja no âmbito da tecnologia, do imobiliário ou das tecnologias limpas, o que importa é criar mecanismos que controlem valores hiper-inflaccionados e insustentáveis, e não nos façam pagar "quatro bois corpulentos, oito porcos gordos e doze cabras robustas" por uns quilos de carbono que de qualquer modo acabarão na atmosfera.



Nações Unidas, Nova Iorque





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