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João Carlos Barradas - Jornalista 14 de Outubro de 2009 às 11:38

Que fazer com esta fraude?

Uma companhia de comandos partirá para o Afeganistão em 2010 para integrar a "Força de Reacção Rápida" do contingente internacional e os custos da participação portuguesa, iniciada em 2002 e centrada sobretudo no treino da polícia e exército afegãos...

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Uma companhia de comandos partirá para o Afeganistão em 2010 para integrar a "Força de Reacção Rápida" do contingente internacional e os custos da participação portuguesa, iniciada em 2002 e centrada sobretudo no treino da polícia e exército afegãos, superarão os 80 milhões de euros no final deste ano.

Os 150 comandos irão juntar-se a 143 militares portugueses que têm vindo a participar em diversas missões da "Força Internacional de Assistência à Segurança" e, tal como os seus camaradas fuzileiros, duas dezenas de homens que este mês reforçaram as unidade de protecção bem se podem interrogar sobre o sentido da sua presença na Ásia Central.

A guerra corre mal aos ocidentais, que se revelam incapazes de conter grupos talibã ou movimentos islamitas como o Hiz-e-Islami, de Gulbunddin Hekmatyar. Os mais de 100 mil militares da NATO e seus aliados (entre eles 65 mil norte-americanos), além de 43 mil homens de forças de segurança privadas, não conseguiram criar áreas seguras que permitam o estabelecimento de uma administração civil e militar afegã em mais de um terço do país.

O que existe da administração central do presidente Hamid Karzai são estruturas ineficazes, corruptas e disfuncionais que assentam na partilha de poderes com senhores da guerra e líderes tribais.

Uma eleição viciada
A eleição presidencial de Agosto deveria, num contexto de redefinição estratégica da presença militar estrangeira, legitimar o governo de Cabul e criar condições para um assumir crescente por parte das entidades administrativas centrais e dos conselhos da 34 províncias de responsabilidades de segurança e coordenação de projectos sanitários e de desenvolvimento.

Tudo se gorou e a votação de 20 de Agosto redundou numa fraude grotesca depois de Karzai ter forjado acordos com líderes tribais como Jan Mohammand e Gul Sherzai para alargar a sua base de apoio tradicional entre as tribos pashtun (40% da população).

Os dois candidatos a vice-presidentes, Mohammad Fahim, um tadjique, e Karim Khalil, um xiita hazara, cobriam, por sua vez, um espectro de alianças com as duas principais minorias étnicas, a que se juntava o contributo do uzbeque Rashid Dostum, num bloco eleitoral de políticos e senhores da guerra com cadastros confrangedores.

A eleição foi, pela primeira vez, organizada pelas autoridades afegãs da "Comissão Eleitoral Independente", com apoio técnico estrangeiro e financiamento internacional.

O número de recenseados atingiu os 16,6 milhões, 35% dos quais mulheres, sendo excluídos mais de milhão e meio de deslocados no Paquistão e 800 mil refugiados no Irão. Como a inscrição nos cadernos eleitorais fora efectuada voluntariamente e, quase sempre, por homens que declaravam o número de mulheres maiores de 18 anos a seu cargo sem verificação das declarações, tornava-se evidente o peso dos eleitores-fantasma e a eventualidade de fraude.

Além das precárias condições de segurança que à partida poderiam excluir do processo eleitoral cerca de 10% dos 7 mil centros de votação, sobretudo no Sul do país, outros locais vieram a revelar-se problemáticos pois na ausência de monitores estrangeiros recrudesceram as dúvidas sobre a idoneidade de boa parte dos representantes da "Comissão Eleitoral Independente", encarregue do recenseamento, organização da eleição e escrutínio.

Perda de credibilidade da ONU
Os resultados preliminares deram 55% dos votos a Karzai e 28% ao antigo ministro dos negócios estrangeiros Abdullah Abdullah e de imediato surgiram alegações de fraude generalizada a somarem-se às irregularidades no próprio dia da votação (cartões de recenseamento à venda, compra aberta de votos, etc.).

Observadores da União Europeia manifestaram as suas suspeitas em relação à validade de pelo menos 1,5 milhões de votos (entre eles 1,1 milhões obtidos por Karzai) e, à medida que crescia a polémica, o número dois da missão da ONU, o norte-americano Peter Galbraith, acusou publicamente o seu chefe, o norueguês Kai Eide, de ter falhado na prevenção de actos fraudulentos e de esconder provas de fraude generalizada a favor de Karzai.

As acusações de Galbraith levaram o secretário-geral da ONU Ban Ki Moon a demiti-lo a 30 de Setembro, mas Eide acabou por reconhecer no passado domingo a ocorrência de fraudes significativas nas regiões do Sul e do Sudeste, áreas de maioria pashtun favoráveis a Karzai.

Documentos internos da ONU, entretanto vindos a público, constatam fraudes gravíssimas como, por exemplo, na província de Paktika, área maioritariamente pashtun no Sudeste do país. Os funcionários das Nações Unidas estimaram o número de votantes em cerca de 35 mil, mas a "Comissão Eleitoral Independente" registou 206.886 votos, dos quais 193.541 para Karzai.

Na guerra sem parceiro
Uma fraude generalizada impossível de contabilizar foi o veredicto de Eide, que remeteu a prova dos factos para a "Comissão Eleitoral de Apelo", uma entidade presidida pelo canadiano Grant Kippen e onde se contam dois representantes afegãos, um norte-americano e um holandês.

A Comissão invalidara a votação em 83 centros de voto devido a fraudes, e a 15 de Setembro declarou que os boletins de 2.516 locais de voto (10% do total) seriam recontados devido a suspeitas de irregularidades graves.

Enquanto se aguarda para esta semana o veredicto da "Comissão Eleitoral de Apelo", logo na segunda-feira um dos seus elementos, o juiz afegão Maulawi Barakzai, demitia-se alegando "interferências estrangeiras inaceitáveis".

Se a Comissão anular um número de votos que faça cair a votação em Karzai abaixo dos 50%, será necessário realizar uma segunda volta entre o actual presidente e Abdullah, de ascendência mista pashtun e tadjique.

A nova votação teria lugar três semanas após a publicação dos resultados finais sem que haja tempo ou vontade para reformar as práticas corruptas da "Comissão Eleitoral Independente" e já sob a ameaça de isolamento de grande parte das zonas rurais do Centro e do Norte do Afeganistão devido a nevões.

Caso Karzai veja confirmada a vitória, a legitimidade do presidente será contestada e, depois das próprias Nações Unidas verem a sua credibilidade posta em causa na monitorização e denúncia de fraudes, mais difícil ainda será aos estados empenhados militarmente no Afeganistão negociarem com um governo central saído de uma imensa tramóia eleitoral.

Prosseguir um esforço de guerra sem ter parceiros credíveis nas próprias instituições oficiais afegãs é perder o norte e condenar-se ao fracasso.

Não serão só os 40 mil militares que Barack Obama possa vir a destacar como reforço do contingente dos Estados Unidos, como pede insistentemente o seu comandante no Afeganistão, o general Stanley McChrystal, que acabarão por se interrogar sobre o sentido da sua presença na Ásia Central. Também as tropas portuguesas dificilmente compreenderão o que se quer nesta guerra.


Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
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