André  Veríssimo
André Veríssimo 29 de novembro de 2016 às 07:00

Quem ganha e quem perde com a demissão de Domingues

Num caso sem vencedores, há quem saia por cima na polémica da Caixa e protagonistas que ficam fragilizados.
QUEM GANHA


CATARINA MARTINS

Coordenadora do BE

O Bloco esteve na linha da frente das críticas a António Domingues, exigindo desde a primeira hora a entrega das declarações de rendimentos. Foi decisivo para viabilizar na AR o diploma que obriga, sem sombra para dúvidas, os gestores da Caixa a divulgarem os rendimentos. A saída do presidente da CGD é uma vitória política para o BE, que com este processo ainda marcou fronteiras para o PS.


PEDRO PASSOS COELHO
Presidente do PSD

O PSD é o principal responsável pelo ruído à volta da Caixa e pelo desgaste da nova administração. Sem conseguir arranjar outros a que se agarrar, fez deste o seu cavalo de batalha nas últimas semanas. Criticável no excesso, no fim o ataque rendeu dividendos. A demissão de António Domingues é uma derrota do Governo e, portanto, uma vitória, mesmo que pírrica, para a oposição.


ASSUNÇÃO CRISTAS
Presidente do CDS-PP

Embora não com o ardor do PSD, o CDS também fustigou o Governo com o tema da gestão da Caixa, acusando-o de falta de transparência no processo e exigindo a divulgação das declarações de rendimentos. Aprovou, ao lado do PSD e do Bloco de Esquerda a alteração que inviabiliza a excepção no Estatuto do Gestor Público para os administradores da Caixa.


MARQUES MENDES
Comentador

Muito do incêndio à volta da gestão da Caixa foi sendo ateado pelo conselheiro de Estado. Foi pela sua intervenção que o país ficou a saber que existia um alegado acordo com Domingues para dispensar os membros da administração de apresentar a declaração de rendimentos. O seu comentário na SIC ao domingo à noite ganhou peso. Só não antecipou o momento da saída de Domingues.


CARLOS CÉSAR
Presidente do PS

O PS sai relativamente incólume desta trapalhada, que atinge sobretudo o Governo. Carlos César defendeu desde o início o cumprimento da legislação, afirmando há um mês que "os gestores da Caixa Geral de Depósitos têm de entregar a declaração de rendimentos". Só não conseguiu evitar que o Bloco não votasse ao lado do PSD e do CDS. Nem à segunda.


QUEM PERDE


ANTÓNIO COSTA
Primeiro-ministro

A Caixa estava desde Dezembro em gestão corrente. Além do plano de recapitalização, o que se exigia do Governo é que encontrasse uma solução duradoura e que trouxesse estabilidade. Falhou, por completo, neste capítulo, o que também é responsabilidade do primeiro-ministro. O caso também não abona a favor da imagem de Portugal junto das instituições europeias.


MÁRIO CENTENO
Ministro das Finanças

Sai fragilizado com o fim da solução de gestão que defendeu para a Caixa. Geriu mal o processo. Terá dado a Domingues condições excepcionais, sem perceber que elas poderiam degenerar num imbróglio político.  A excepção na apresentação das declarações "não é lapso", chegaram a dizer as Finanças. Depois teve de dar o dito pelo não dito. A recapitalização ficou para 2017.


MOURINHO FÉLIX
Sec. Estado do Tesouro

Ricardo Mourinho Félix é, a par de Mário Centeno, o que sai mais "chamuscado". Chegou a dizer num dia de manhã que "não havia acesso do público em geral às declarações" de rendimentos dos administradores da Caixa, para garantir à tarde que as mesmas tinham de ser entregues no Constitucional. Já tinha recuado a propósito das alterações ao regime das instituições de crédito. 


ANTÓNIO DOMINGUES
Presidente da CGD

O processo da sua nomeação foi marcado por casos desde o início. António Domingues achou, mal, que podia estar no maior banco público como quem está num privado. Que podia ficar acima da política. Percebeu, tarde demais, que só a entrega rápida da declaração de rendimentos podia ter estancado os danos. No fim, tornou-se um incómodo para o accionista e perdeu o apoio político.


VÍTOR CONSTÂNCIO
Vice-presidente do BCE


O Banco Central Europeu,  de que Vítor Constâncio é vice-presidente, apadrinhou a escolha de António Domingues e da sua equipa para a gestão da Caixa Geral de Depósitos. Sendo alheio à trapalhada que se seguiu, não deixa de ser beliscado na sua imagem por ter sancionado, não sem várias exigências, uma solução que durou parcos meses.

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