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Opinião
Marina Costa Lobo marinacosta.lobo@gmail.com 03 de Outubro de 2012 às 23:30

Quem quer uma crise política?

O governo decidiu pôr todas as televisões existentes contra ele ao anunciar a concessão da RTP1 ou a sua privatização no mesmo mês em que se soube que os objectivos do défice para 2012 não iam ser cumpridos

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Nos últimos dias tem havido uma série de mini-crises políticas para o Governo. Todas as declarações feitas pelo executivo ou pelos seus próximos parecem servir para afundar cada vez mais um Governo desnorteado. O nosso primeiro-ministro que até agora tinha cultivado uma imagem de chefe hesitante, pedindo sempre desculpa pelas medidas difíceis, está a transformar-se, aos olhos da opinião pública, num líder arrogante e autista que não ouve os parceiros políticos no momento mais difícil do País.

Sendo certo que nos últimos dias um conjunto impressionante de actores políticos tem sido capaz de uma enorme falta de bom senso, quando olharmos para trás, não penso que nada disto faça muita diferença. Haverá sempre alguém responsável pelo despoletar final de uma crise política, mas os factores estruturais são o que mais determina o que está a acontecer. E infelizmente, nesse aspecto, não nos estamos a diferenciar da Grécia.

Acontece que a agenda económica implementada fielmente por Portugal no último ano não conduziu ao efeito esperado. Pelo contrário, houve uma deterioração económica traduzida numa derrapagem orçamental para o terceiro trimestre do ano. O desemprego e a crise tornam agora cada vez mais difícil a implementação de novas medidas. Ora isto é exactamente o que aconteceu e acontece na Grécia onde a máquina do Estado se torna cada vez menos capaz de implementar políticas de reforma ou de receitas. A diferença é que as nossas manifestações até agora têm sido pacíficas, enquanto as deles eram mais violentas. E tudo isto está a fragilizar ulteriormente um Governo que à partida não brilhava pela liderança política. Embora até agora não tenhamos tido um Alex Tsipras para capitalizar o protesto, temos apesar disso um Bloco de Esquerda e PCP que estão à espreita de serem os principais beneficiados por uma eventual queda do Governo e o recurso às eleições.

Destaco, apesar de tudo um pormenor singular nesta história em tudo semelhante à grega: no nosso país, o Governo decidiu pôr todas as televisões existentes contra ele ao anunciar a concessão da RTP1 ou a sua privatização no mesmo mês em que se soube que os objectivos do défice para 2012 não iam ser cumpridos. É um facto que desde que esse tema surgiu, a disponibilidade das televisões para discutir as dificuldades do Governo se têm tornado muito maiores. Neste momento, a coligação de vontades entre BE, PCP e Televisões está a exponenciar a já existente percepção de deterioração no clima político que vivemos.

No meio deste turbilhão político, é preciso ver que a queda deste Governo, um governo técnico, ou mesmo eleições constituem mais um passo na aproximação à Grécia, e que deve ser evitado. O caminho exíguo que Portugal tem neste momento é aquele que se trilhou desde o anúncio da TSU. Houve a intervenção da sociedade civil, do Presidente, das associações, dos patrões, dos partidos de oposição. No fim, o Governo cedeu. Será algo que na prática se aproximará a um Governo de salvação nacional, mesmo se, formalmente o Governo continuará a ser apenas do CDS-PP/PSD, pois uma maioria absoluta não chega para implementar as medidas que são precisas agora para manter o financiamento à economia portuguesa.

Sendo assim, em que medida o orçamento agora anunciado por Vítor Gaspar contribuiu para amenizar ou, pelo contrário, veio agudizar a deterioração política? Sendo certo que é relativamente cedo para avaliar, parece que Gaspar agora se aproximou mais dos critérios de equidade defendidos pelo Tribunal Constitucional antes do Verão. Mas o ponto é este: se não for adequado será necessário que os actores que intervieram para corrigir a trajectória do Governo na TSU o façam novamente, mas sem recurso a uma crise política que iria desfazer de uma vez por todas as dúvidas no estrangeiro sobre a nossa semelhança à Grécia.

Politóloga
marinacosta.lobo@gmail.com
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