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Nicolau do Vale Pais 10 de Setembro de 2010 às 11:00

"Space Invaders"

Pela altura da Faculdade, com a internet a dar os primeiros passos, já estávamos rotulados de "geração rasca".

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Fui dono de uma máquina de video-jogos a que se chamou "Atari 2600" - com o seu joystick e jogos primitivos, de desafiante (ou viciante) jogabilidade, ainda hoje é considerada a máquina que abriu caminho a uma indústria de milhões de euros - e, naquela altura, os gráficos pouco mais proporcionavam do que um conjunto monótono de representações geométricas tipo Lego, acompanhados por sons que não eram muito mais evoluídos do que os de um painel de um qualquer elevador dos nosso dias de hoje - um blip, um ping, um toc-toc, um poing no final de "mais uma vida".

"Space Invaders", o jogo em que o nosso canhão tem que eliminar as naves inimigas antes que estas aterrem, numa cadência cada vez mais rápida e conducente à derrota inevitável, era o resumo de todas as potencialidades da máquina e do jogador. Não o podemos comparar a nada do que hoje vemos nesta área: "Space Invaders" estava mais próximo de um clássico jogo de tabuleiro do que de uma máquina de calcular.

Porque o tempo passa demasiado rápido nesta aceleração tecnológica, entrou lá em casa, pouco depois, um dos milhares de "ZX Spectrum" distribuídos pela Triudus lá pelos meados dos anos 80 - terá sido por aí que todos nos transformámos em potenciais consumidores informáticos. A máquina de 48 kilobytes de memória - insuficientes para guardar um texto como este! - era sibilina no marketing e product development.

Resumindo, a promessa era de potenciar o desenvolvimento intelectual dos jovens, introduzindo-os em casa ao ambiente que os haveria de rodear no sucesso da década seguinte. A máquina permitia "programação" em BASIC, as possibilidades "inventivas" eram colossais - e como o monitor era um normal aparelho de TV, o ZX Spectrum era a cores e económico. É lógico que aprendeu quem aprendeu - tal e qual como aquando da introdução das máquinas de calcular na década anterior, não foi a tecnologia per si que abriu oportunidades a quem não as tinha, ou caminhos a quem os não queria ou podia ver. Na verdade, o sucesso do Spectrum está ligado à pirataria - os jogos, em cassete áudio, eram fáceis, muito fáceis de copiar. E assim, calados, passámos ainda mais fins de semana em frente à TV.

Pela altura da Faculdade, com a internet a dar os primeiros passos, já estávamos rotulados de "geração rasca". O termo visava branquear a responsabilidade das ineficácias bonímicas da geração que nos antecedeu, e, pior, o pleno fracasso das suas expectativas em relação ao Mundo que tinham prometido a si próprios. A expressão em si vale nada, mas exemplifica bem a neurose de "paternidade mal-assumida" e a dificuldade em respeitar a emancipação e a autodeterminação dos que nos sucedem - é, portanto, um exercício pleno de intolerância. Agora, chovem Magalhães pela mão do Eng. Sócrates; uma máquina incriticável, que é o exemplo acabado do próprio fracasso de quem decide distribuí-la "gratuitamente".

Não é tecnologia coisa nenhuma, é caridade paternalista em vez do merecido poder de compra e a liberdade de escolha que a ele deveria estar associada, para que tudo possa ser "assim liberal".

Não há pai para nós, "os rascas": até já escrevemos nos jornais, quando ainda há 15 anos mostrávamos os contestatários rabos na Assembleia da República, protestando contra as SCUT da Dra. Ferreira Leite, as famigeradas propinas.

Os déficits dão realmente muito jeito a quem os cria, mas muito pouco a quem os tem de pagar.

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