Luís Todo Bom
Luís Todo Bom 02 de novembro de 2014 às 18:30

Reindustrialização e empresas familiares

Acaba de ser publicado um livro, "Making in América", que resulta do trabalho de investigação realizado durante dois anos por uma equipa do MIT - Massachussets Institute of Technology, sobre o processo de Reindustrialização dos Estados Unidos da América.

 

O livro tem um capítulo muito interessante sobre a indústria alemã, em que se procuram encontrar as razões para a dimensão, vitalidade, competitividade e capacidade exportadora do sector industrial alemão.

 

Este sector que representa mais de 20% do Produto Interno Alemão, que compara com 11% nos EUA, revela uma enorme competitividade nos bens transaccionáveis, em mercados internacionais apesar de ter de suportar custos do trabalho muito superiores, nas suas unidades.

 

A investigação efectuada aponta para três variáveis que explicam este sucesso sectorial:

 

• O modelo de negócios alemão, suportado em médias e grandes empresas familiares, que, com uma atitude financeira conservadora em termos de endividamento, uma estratégia de longo prazo para que as empresas se mantenham na família e relações preferenciais com os bancos locais, apresentam uma grande resiliência nas épocas de crise.

 

• O sistema de inovação da indústria alemã, ao nível dos produtos e, sobretudo, ao nível dos processos, concentrando-se em produtos industriais - equipamentos - vendidos a outras unidades empresariais com um mix inteligente de inovação radical e incremental, no âmbito da concepção, do design e da produção e, sobretudo, nos serviços de costumização para os clientes.

 

• O ecossistema de inovação industrial alemão, com uma grande eficiência em toda a cadeia de valor do conhecimento, englobando universidades, institutos de investigação, parques tecnológicos, incubadoras de empresas de base tecnológica, entidades públicas de apoio à inovação empresarial, associações empresariais sectoriais, sociedades de capital de risco e capital semente e as empresas, com uma atitude permanente de inovação em toda a sua cadeia de valor, englobando e enquadrando os fornecedores e os clientes.

 

No cerne de todo este ecossistema estão sempre as empresas familiares, pouco alavancadas, pouco dependentes dos mercados de capitais, com cultura e valores das famílias, com compromissos de longo prazo perante todos os seus "stakeholders", com rapidez e capacidade de decisão e com uma permanência no mercado ao longo de gerações, transmitindo confiança a todos os agentes económicos em especial às instituições financeiras.

 

Tal como as empresas alemãs, as empresas familiares portuguesas devem sentir orgulho nessa sua característica e serão essenciais no processo de reindustrialização do nosso país.

 

Existem, aliás, muito bons exemplos em Portugal, com empresas familiares inovadoras, que são referências sectoriais e regionais e com preocupações de sustentabilidade e solidariedade social.

 

Professor Associado Convidado da ISCTE Business School 

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