Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 25 de maio de 2015 às 19:55

Ricos de dívidas

O que designam por empobrecimento ou por austeridade não é mais do que a nudez forte da verdade sem o manto diáfano da fantasia.

A FRASE...

 

"Se a palavra 'troika' fosse associada a uma ideia, essa seria, inevitavelmente, 'empobrecimento'."

 

Manuela Ferreira Leite, Expresso, 23 de Maio de 2015

 

A ANÁLISE...

 

Se a palavra "troika" é associada a uma realidade, essa é, inevitavelmente, "dívida" - porque foi a acumulação de dívidas (do Estado, das empresas, das famílias) que conduziu à bancarrota que, sem a benevolência da troika, teria implicado, não o empobrecimento, mas a miséria e a ruína de todos e de um dia para o outro. Foi para mim um mistério ver como observadores responsáveis se recusavam a reconhecer que se seguia numa trajectória para a impossibilidade. Agora, é para mim um mistério ver como classificam de empobrecimento aquilo que é apenas a consequência lógica e inevitável de o enriquecimento anterior ser uma fantasia que foi paga com endividamento.

 

O que designam por empobrecimento ou por austeridade não é mais do que a nudez forte da verdade sem o manto diáfano da fantasia: as dívidas que se acumularam são a prova material, real, de que esse enriquecimento nunca existiu, foi o resultado de um imenso dispositivo distributivo que transferiu recursos financeiros emprestados para pagar o que sucessivos responsáveis políticos designaram como direitos que eles próprios atribuíam - e que financiavam com o dinheiro de estrangeiros. Se esse enriquecimento nunca existiu, que justificação pode ter quem fala de empobrecimento?

 

Mistérios idênticos aos que encontrei foram há muito identificados por um general romano, observando um povo no extremo Ocidente da Europa, que não se governava nem se deixava governar. O que se vê agora é que estes mistérios nunca foram resolvidos, os culpados nunca foram identificados e, portanto, nunca foi feito o julgamento porque os réus se apresentam como vítimas: finge-se tão completamente que se chega a fingir que é riqueza a dívida que deveras se pediu.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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