André Macedo
André Macedo 25 de fevereiro de 2018 às 19:48

Rui Rio é Elina Fraga ou David Justino?

O que eu gostaria de saber ainda não consegui: Rui Rio conheceu Elina Fraga como, quando e onde? A relação política entre os dois desenvolveu-se em que circunstâncias, o que os aproximou ideologicamente, quais as ideias de mudança e melhoria da sociedade que partilham ao ponto de o novo presidente do PSD ter convidado a ex-bastonária dos advogados para a sua equipa? A "Sábado" contou esta semana que estiveram juntos na Ordem dos Contabilistas, o que já revela algum trabalho de pesquisa jornalística e ajuda a resolver o mistério, mas não por inteiro.
A relação política entre os dois desenvolveu-se em que circunstâncias, o que os aproximou ideologicamente, quais as ideias de mudança e melhoria da sociedade que partilham ao ponto de o novo presidente do PSD ter convidado a ex-bastonária dos advogados para a sua equipa? A "Sábado" contou esta semana que estiveram juntos na Ordem dos Contabilistas, o que já revela algum trabalho de pesquisa jornalística e ajuda a resolver o mistério, mas não por inteiro.

A revista avançou ainda que Rui Rio aparecia nestas reuniões dos contabilistas sempre com alguma pressa - estaria já a preparar a candidatura ao PSD, não lhe sobrava, por isso, muito tempo -, um pedaço de informação que nos convida a deduzir que pode não ter sido apenas aí que aprofundaram o conhecimento mútuo ao ponto de Elina Fraga ter sido convidada, perante o espanto geral e os riscos evidentes, para o Conselho Nacional do PSD.

Talvez Elina Fraga não assuma no futuro nenhuma importância especial no caminho do PSD. Se me perguntarem quem está nos órgãos dirigentes do PS, CDS, Bloco e PCP a resposta é evidente: conheço algumas pessoas, certamente não todas, e não sei se têm algum tipo de influência junto dos respectivos líderes, estejam eles no governo ou na oposição. Como não há a tradição de haver governos-sombra em Portugal, nem sequer podemos inferir quem será o porta-voz social-democrata para os assuntos de justiça e também não podemos concluir que um dia, se o PSD voltar a ser governo, se esse mesmo porta-voz não acaba sentado no Parlamento em vez de conduzir o Ministério da Justiça - na verdade, é quase sempre isso que acontece.

O que dá especial relevância a Elina Fraga é o facto de não ter uma relação pública forte e visível ao PSD antes deste último congresso, o que é uma verdade incontestável, e ainda a gritante evidência de ter-se oposto duramente a Paula Teixeira da Cruz, ao ponto de ter anunciado uma queixa-crime contra os ministros de Passos Coelho por causa da alteração ao mapa judiciário. Esta politização da justiça - pedir aos tribunais que travem políticas públicas -, só é adequada em circunstâncias excepcionais, o que não era manifestante o caso. Já as críticas de Elina Fraga ao Ministério Público valem o que valem: não conheço um único advogado que não conteste o MP e a amplitude de movimentos que lhe é concedida pelo Código de Processo Penal em diferentes áreas, a começar pelo perigoso deslizar dos prazos para formular a acusação e a terminar nas fugas de informação com força para matar reputações, ou seja, a vida dos suspeitos.

Elina Fraga é, portanto, uma incógnita política, a que se juntam as dúvidas sobre a forma como geriu a Ordem dos Advogados - uma intricada montanha de contas e despesas que, não pisando a linha da legalidade, espezinham aquilo que deveriam ser os princípios de boas contas e gestão irrepreensível, precisamente duas características que definem o principal capital político de Rui Rio. Podemos ainda não saber o que o novo presidente do PSD quer para o país, mas ninguém contesta que o programa terá na transparência política e na gestão cuidadosa das contas dois propulsores essenciais. Ora bem, se Fraga falha nestes dois critérios, isso traz consigo duas dúvidas existenciais para Rui Rio.

Finalmente, convém dizer que a presença de David Justino, para dar um exemplo flagrante, é exactamente o oposto. Informado, culto, disponível para pensar e ouvir os outros... Justino credibiliza Rui Rio e a política partidária. Credibiliza o PSD. Mais: transmite a ideia de que algumas pessoas indicadas pelo presidente social-democrata não chegaram de paraquedas, fazem parte de uma estratégia deliberada que pretende aproveitar o tempo na oposição para pensar e repensar o país de forma sistémica e não apenas respondendo aos safanões da manipulável agenda mediática. Estamos cansados de partidos que vão para o governo estagiar. Entre a certeza intelectual que nos oferece David Justino e as dúvidas políticas que cercam Elina Fraga há um abismo que ditará, a prazo, o êxito ou o fracasso de Rui Rio.

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico
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