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Salada russa

O primeiro choque petrolífero eclodiu quase há 40 anos. E esta é a medida do tempo desperdiçado pelas economias desenvolvidas do Ocidente para reduzirem a dependência dos combustíveis de origem fóssil. Desde a longínqua primeira metade dos anos 70 do século passado, que existem duas boas razões para perseguir aquele objectivo: uma fundada em interesses ecológicos; outra de natureza estratégica.

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O primeiro choque petrolífero eclodiu quase há 40 anos. E esta é a medida do tempo desperdiçado pelas economias desenvolvidas do Ocidente para reduzirem a dependência dos combustíveis de origem fóssil. Desde a longínqua primeira metade dos anos 70 do século passado, que existem duas boas razões para perseguir aquele objectivo: uma fundada em interesses ecológicos; outra de natureza estratégica.

Os alertas mais expressivos costumam surgir da forma mais ruidosa. Desde o final da semana passada, materializaram-se como um conflito militar entre a pequena e frágil democracia em vigor na antiga república soviética da Geórgia e os seus poderosos vizinhos da Rússia.

A pretexto da protecção dos seus cidadãos que habitam as regiões separatistas da Abkházia e da Ossétia do Sul, Moscovo aproveitou os ataques militares da Geórgia nesta última região para transmitir ao mundo um sinal dos novos tempos.

Ao recusar um cessar-fogo, Vladimir Putin mostra como não está disposto a recuar no trilho que visa recompor o vasto círculo de influência anteriormente detido pela URSS, numa região do globo rica em recursos energéticos. Reassumir influência sobre os destinos da Geórgia, ao subjugar pela pressão da força um governo pró-ocidental, corresponde a apertar um pouco mais o laço da dependência no abastecimento de petróleo, gás natural e produtos derivados que já ameaça asfixiar muitas das economias europeias.

Actualmente, a União Europeia assegura junto da Rússia um quarto dos abastecimentos de energia de que necessita. Pelo território do sul da Geórgia, passa o único "pipeline" que não está sob o controlo de Moscovo, permitindo o abastecimento a Ocidente através do Mediterrâneo. Caso se recorde que Putin não escondeu o apetite do actual poder russo de controlar, em duas décadas, mais de dois terços dos fornecimentos de energia à Europa, percebe-se por que motivo não terá vontade de largar o osso, agora que lhe foi dada a oportunidade de o morder.

Estender o domínio à Geórgia pode ser ouro sobre azul para os objectivos do Kremlin. Aos países europeus que estão dependentes dos humores da torneira por onde chega a energia transportada através da Rússia, interessa manter o "pipeline" que parte de Baku e termina no sul da Turquia afastado das mãos longas de Moscovo. É por esta via que poderão ser garantidos abastecimentos provenientes do Azerbaijão e do Turquemenistão. As hostilidades que estouraram na região ameaçam aquilo que parecia ser um plano sensato de diversificação de fornecedores.

O esforço de Moscovo para retomar o papel de grande potência mundial tem outro alicerce. A economia exaurida herdada do período comunista deu lugar a uma outra, com taxas de crescimento bem mais aceleradas. Ao absorver uma fatia mais ampla do rendimento mundial, a Rússia pode dispensar muitos dos recursos que outrora necessitava de aliciar junto do Ocidente. A salada está servida. É russa e é amarga.

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