Fernando  Sobral
Fernando Sobral 19 de fevereiro de 2018 às 22:06

Saudi Aramco: objectivo petróleo

A próxima privatização da Saudi Aramco está a despertar muitos apetites. Donald Trump não está só na corrida. A Rússia está a aproximar-se de Riade com o apoio da China. 

Enquanto em Portugal se discute a venda da Partex, pela Gulbenkian, a interesses chineses, no Médio Oriente a conversa centra-se à volta de um negócio multimilionário da área do petróleo: a OPV de parte do capital da Saudi Aramco da Arábia Saudita. O dinheiro que daí pode resultar será crucial para o projecto de desenvolvimento futuro do reino saudita e mesmo para o futuro político do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Até agora antevia-se que a visita de Donald Trump a Riade e o seu apoio à estratégia saudita no Médio Oriente garantiriam a colocação da Saudi Aramco na bolsa de Nova Iorque, mas há cada vez mais sinais de que um eventual consórcio russo-chinês poderá disputar o manifesto desejo americano. Em Riade, na passada semana, responsáveis sauditas e russos reuniram-se. A Rússia ofereceu-se para investir directamente na privatização de parte da Saudi Aramco e os sauditas agradeceram. E Moscovo não partiu só: fala-se de um consórcio com a China para angariar suficiente capital para entrar em força na petrolífera saudita. Se Donald Trump escolheu a Arábia Saudita para a sua primeira visita externa, um sinal dos negócios que tinha em mente, é a vez de outras grandes potências moverem as suas peças. Riade planeia vender 5% da Saudi Aramco, o que será a maior OPV da história, num valor que poderá chegar aos 100 biliões de dólares.

 

O projecto Vision 2030 para o futuro do reino requer este financiamento. Na semana passada, em sequência disso, a Saudi Aramco assinou um acordo com a Novatek, o maior produtor de gás natural não estatal da Rússia, tendo em vista o investimento saudita na Arctic-2 que deverá operar a partir de 2023. Para o ministro da Energia saudita, Khalid Al-Falih: "Este é um grande projecto. Fará parte da estratégia de gás da Aramco." A Aramco e o fundo soberano saudita também investiram na prospectora russa Eurasia Driller, que tem tentado fazer prospecções na Arábia Saudita. Tudo isto representa uma aproximação histórica entre a Arábia Saudita e a Rússia, mais interessante após a visita de Trump a Riade e o conflito na Síria, que colocam Moscovo e o reino saudita em posições divergentes. Não admira que politicamente tenham discutido a Síria, as relações com o Irão e mesmo o Qatar. A Rússia parece estar a posicionar-se para o novo mapa político que sairá dos recentes conflitos. E no qual o contraste com a política americana não poderia ser mais evidente.

 

Síria: o mistério dos russos mortos

 

Não foi um incidente qualquer. Mas rapidamente foi menosprezado e silenciado. Não se sabe ao certo o número de militares russos que foram mortos pela artilharia e helicópteros Apache americanos, quando estes atacaram uma coluna militar que já em Fevereiro se dirigia para uma zona controlada pelas designadas Forças Democráticas Sírias, apoiadas pelos EUA. O embaraço foi claro. Os russos negaram que as baixas tivessem sido militares russos. Falou-se então de mercenários russos presentes no terreno. Seja como for, seriam russos que utilizariam bases fornecidas pelo exército russo presente na Síria. Além disso este é um assunto muito complicado em termos internos. Depois da fracassada guerra no Afeganistão, a presença da Rússia na Síria foi a primeira acção fora das suas zonas fronteiriças. E marcou uma fase muito importante nos conflitos internacionais: depois do monopólio das intervenções americanas em todo o mundo, este é o regresso da Rússia aos palcos internacionais em termos  militares.

 

Há muito que Vladimir Putin considerava que a Primavera Árabe tinha ligações às crises nas fronteiras russas, como na Sérvia, Ucrânia e Geórgia. O entusiasmo ocidental em promover a "democracia" em locais conhecidos pelas ditaduras que as governavam, deixava antever a hipótese de os EUA estarem a preparar uma espécie de Primavera Russa. As manifestações em Moscovo em 2011 e 2012 tornaram Putin mais crente desta ideia. A intervenção na Síria teve a ver com esta concepção. Mas Putin está a descobrir que não pode deixar Bashar al-Assad sozinho: sem a aviação russa e sem as milícias pró-iranianas no terreno o exército sírio não conseguirá dominar todos os focos de resistência, sobretudo se estes tiverem apoio americano, com dinheiro saudita (como sucede no caso das FDS). Isto no meio da incoerente política americana para o Médio Oriente.

 

Qatar: pacto de segurança

 

O Qatar deseja um pacto de segurança segundo os parâmetros da União Europeia. Segundo o emir Tamin bin Hamad al-Thani, os estados do Médio Oriente deveriam ultrapassar as suas divergências e criar um pacto de segurança para trazer a região de novo ao caminho para o futuro. O modelo seria a União Europeia. Numa conferência sobre a segurança, realizada em Munique, al-Thani disse: "É tempo para todas as nações da região esquecerem o passado, incluindo nós, e concordar em princípios básicos de segurança e regras de segurança, e pelo menos um nível mínimo de segurança que nos permita caminhar para a paz e a prosperidade." "Está demasiado em risco", acrescentou. O Qatar tem sido sujeito nos últimos meses a um bloqueio imposto pela Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

 

Macau: comemoração do Fórum

 

A secretária-geral do Fórum de Macau, Xu Yingzhen, anunciou em Pequim que vai ser comemorado este ano em Macau o 15.º aniversário do estabelecimento da instituição, criada em 2003 na sequência de uma iniciativa da China que obteve a adesão dos países de língua portuguesa. Entre as missões estará a de apoiar o governo de Macau na construção da Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os países de língua portuguesa.

 

China/PALOP: comércio aumenta

As trocas comerciais entre a China e os países de língua portuguesa cifraram-se em 117,58 mil milhões de dólares em 2017, valor que representa um aumento homólogo de 29,40%. Com Portugal as trocas comerciais da China atingiram o valor de 5,60 mil milhões de dólares (-0,17%), com as empresas chinesas a terem vendido bens no valor de 3,48 mil milhões de dólares (-13,81%) e a terem comprado mercadorias no valor de 2,12 mil milhões de dólares (+34,69%).

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