Baptista Bastos
Baptista Bastos 21 de junho de 2013 às 00:01

Senhor: não lhes perdoeis porque eles sabem o que fazem

Os números da nossa miséria são assustadores e não param de aumentar. O êxodo da juventude, resultado do desemprego e da angústia, faz de nós um país de mais velhos do que já somos. Os suicídios crescem de Norte a Sul; agora, as estatísticas dizem-nos que, no Alto Minho, os índices do desespero dão uma nota elevada às mulheres que põem termo à vida. O país de suicidas, de que falava Unamuno, voltou a dar razão ao filósofo. E as infaustas notícias não chegam aos jornais, vá-se lá saber porquê.

A tragédia que se abateu sobre a nossa pátria atinge dimensões medonhas. O meu velho amigo Carlos do Carmo, ainda há dias, num programa nocturno da RTP, alimentava as nossas esperanças, dizendo que sempre "demos a volta por cima em circunstâncias históricas funestamente semelhantes." Seja como grande cantador, prevê e deseja. De qualquer das formas, a sua voz dá ânimo e força às nossas tão debilitadas energias. Sou mais pessimista. Prevejo um horizonte sombrio. Mesmo quando nos libertarmos desta gente e pudermos remendar e cerzir os estragos que fizeram, no tecido económico, social e, sobretudo, moral da nação, a tarefa vai ser soberana entre as demais.

 

Freitas do Amaral disse, há dias, que a situação portuguesa, pelo peso histórico que encerra, pode ser comparável a 1383 e aos sessenta anos da ocupação castelhana. Não serei eu a contrariá-lo. Mas, pessoal e civicamente, no meio das "avaliações" da troika, sinto-me como enclausurado na minha terra. E este Governo subserviente, sem alma e sem dignidade, que obedece a tudo e admite tudo com a espinha dobrada e um sorriso feliz, representa mais um regente do estrangeiro do que o mandatário de um povo. Custa-me escrever e pensar assim; porém, não posso calar a voz da minha consciência. Nunca procurei dividendos de uma luta antiga e extremamente perigosa na qual me tenho envolvido. Pertenço a uma geração que se inspirou em outras gerações de portugueses, que possuíam uma noção muito acendrada de pátria e de liberdade. E chego a "isto" que por aí está com um desgosto infinito.

 

Claro que, mais tarde ou mais cedo, as coisas modificar-se-ão, pela própria natureza dialéctica da História, mas as chagas deixadas por esta malandragem não cicatrizarão tão cedo. Espero que os responsáveis deste crime sejam condenados, e que a impunidade tradicional, a cumplicidade entre uns e outros não façam, de novo, lei. Estamos a ser traídos, assassinados, desprezados e culpados de delitos que desconhecemos e que não cometemos. Estamos a perder, porque assim nos obrigaram, a noção de sociedade, as relações humanas que formaram o nosso modo de ser.

 

Atribuem à Europa todos os malefícios que nos afligem, e esta gentalha não faz o mínimo esforço para os escarmentar. Quem é Vítor Gaspar e que sabemos dele a não ser o que diz aqueloutro António Borges, cuja origem também, rigorosamente, desconhecemos. Uma Imprensa que se desqualifica constantemente passa, com ligeireza e leviandade, por cima dos factos mais relevantes sobre as pessoas que mandam, enriquecem e praticam as tropelias mais graves.

 

Tratam-nos como mentecaptos e eles próprios possuem uma cultura de serventuários dos grandes e ocultos interesses. Acaba de ser publicado um precioso livro do professor Paulo Morais, "Da Corrupção à Crise", cuja leitura, além de eu insistentemente recomendar, representa um acto de coragem, de cidadania e de pedagogia social, que todos deviam ler para saber do inferno moral em que sobrevivemos.

 

As relações de poder, estabelecidas entre grandes escritórios de advogados, deputados e governantes, não são apenas sórdidas, são nojentas. O livro revela as ligações dos representantes dos partidos de poder com os Executivos, todos os Executivos, que têm estado no poleiro desde há quase quarenta anos. Já não é só a natureza capciosa das duzentas famílias que, na sombra e no silêncio, nos dominam e nos reprimem. Agora é, "democraticamente", os enredos e os favores trocados que criam a teia para a qual somos atirados. O prof. Paulo Morais (que escreve, semanalmente, no "Correio da Manhã", leitura obrigatória) esclarece, neste importante livro, que passou à categoria de documento, as nebulosas de um regime que está a demolir-se a si mesmo, ante a passividade de quem poderia inverter esta tendência fatal.

 

b.bastos@netcabo.pt

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