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Negócios negocios@negocios.pt 06 de Agosto de 2003 às 14:46

Sérgio Figueiredo: «A rapsódia nacional»

Instalou-se a peregrina ideia, obedientemente assimilada por muita gente, de que, enquanto os fogos não forem extintos, é pecado questionar o Governo, é pouco sensato apurar responsabilidades.

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Um facto. A nossa Força Aérea tem dois “kits” para adaptar aos aviões Hércules C-130 no combate aos fogos florestais. Mas há mais de sete anos que estes meios não são utilizados. Porque a Força Aérea não tem tripulação qualificada.

Porque falta material de substituição. E porque estes aviões afinal não são os mais adequados, uma vez que só podem ser reabastecidos nas bases junto ao litoral, quando os incêndios se concentram no interior do país. Com os dois “kits” encaixotados num armazém, Portugal teve agora de pedir a Marrocos um C-130 com a mesma capacidade.

Outro facto. A construção da linha de Metro do Terreiro do Paço a Santa Apolónia já passou por quase tudo. Aluimentos de terras, trapalhadas políticas, um consórcio de irresponsabilidades. Entretanto, alguém descobriu que, por erro grosseiro do projecto, a nova saída do metro em Santa Apolónia ficava em cima da linha férrea.

Mais de 236 milhões de euros estão enterrados numa obra que não se sabe ainda como irá acabar. Desvio de orçamento e de prazos é mais do que certo. A reparação da porcaria que foi feita no Terreiro do Paço passa para outros construtores. Por ajuste directo.

Último facto. A nossa economia precisa de inovação, a inovação tornou-se um tema chique nas conversas dos nossos políticos e empresários e o Presidente da República deu o impulso à mais arrojada tentativa de promover a inovação de facto nas empresas. Assim nasceu a Cotec Portugal, à qual aderiram prontamente os nossos principais empresários e gestores, para a qual se encontrou um presidente de prestígio, Francisco Murteira Nabo, e sobre a qual entretanto nunca mais nada se falou. Sabe-se, agora, porquê: porque nada aconteceu. Não seria grave, se fossem outras as razões. É que um dos principais operacionais da Fundação, Rui Guimarães, ficou três meses à espera da requisição do Governo para se desvincular da universidade em que trabalha.

A requisição foi pedida a 5 de Maio, mas só foi autorizada pelos ministros Pedro Lynce e Manuela Ferreira Leite no dia 1 de Agosto. Murteira Nabo diz que não é grave, “é o tempo normal para este tipo de procedimentos”.

Estes três factos, que a edição do Jornal de Negócios infelizmente hoje noticia, praticamente dispensam comentários. Mas não dispensam, de facto, porque colocam qualquer cidadão normal perante o dever de se indignar.

Aliás, instalou-se a peregrina ideia (que quase toda a gente engoliu) de que, enquanto os incêndios não estiverem extintos, não é hora de questionar o Governo, de apurar responsabilidades, de perguntar se foi feito tudo o que estava ao nosso alcance. Qual é o mal de exigir explicações aos últimos ministros da Defesa sobre a ausência de meios da Força Aérea no combate aos fogos florestais? Será desrespeito pelas pessoas que estão a sofrer?

Também devemos esperar pela conclusão do Terreiro do Paço, para denunciar a teia de impunidades nas obras públicas e o chocante desperdício de recursos públicos? Ou será pouco construtivo alertar para o conformismo do presidente da Cotec, que assim desiste da sua missão revolucionária, antes mesmo de ter começado?

Por Sérgio Figueredo, director do Jornal de Negócios

Artigo publicado no Jornal de Negócios

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