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Negócios negocios@negocios.pt 21 de Agosto de 2003 às 11:59

Sérgio Figueiredo: «Aprender a ganhar?»

Pense nas elites, na idade média de gestores e grandes empresários, pense na AIP, CIPe AEP, e imagine que, todos eles, formam uma selecção nacional. Ninguém a põe a ganhar. Por isso é tão necessário renovar.

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Juan Díaz é um cidadão que normalmente não aparece na imprensa económica. Muito menos deve servir de exemplo, seja para o que fôr, às empresas e aos empresários nacionais. Por isso não constitui qualquer “case study” para as melhores práticas de gestão. Mas devia.

Embora seja cubano, onde não há capitalismo. Embora seja, como reparava ontem o nosso jornalista Rui Neves, um “admirador indefectível” de Fidel Castro, o que o remete para um quadro de valores que a sociedade portuguesa não entende e nem aceita.

O facto é que o senhor Díaz, sendo cubano, sendo comunista, sendo fidelista, diz-nos coisas muito importantes e às quais deviamos dar ouvidos. Porque o senhor Díaz, que integra a galeria dos dez melhores treinadores de voleibol do século XX, viu na selecção do nosso país um problema que nada tem a ver com o desporto: os portugueses não sabem ganhar.

Não sabem, porque “não acreditam” e acabam por “virar as costas à luta”. Ou seja, o nosso vólei perdia sempre por uma “questão de temperamento”.

É verdade que os portugueses são uns derrotistas natos. Uns pessimistas compulsivos. Mesmo na rua, quando um amigo pergunta “tudo bem?”, ninguém responde que sim. É sempre um “vai-se indo...” ou alguma coisa do género. Mais do que o diagnóstico, é a experiência de Juan Díaz na liderança da principal equipa nacional de voleibol que merece a pena atentar.

Perceber como é que, em menos de dois anos, o “patinho feio” da Liga Mundial ganhou cor e despontou.

Desde logo, teve a capacidade de renovar. Correu riscos, porque recrutou jovens inexperientes, entre os 17 e os 22 anos de idade, quase todos sentados nos bancos de suplentes dos clubes portugueses ou até em equipas da segunda divisão.

Depois, acrescentou uma perspectiva de médio prazo, pelo menos “mais quatro anos de trabalho intensivo”, para criar uma base. Com isto, introduziu outro conceito – sustentabilidade: “como se sabe, mais díficil que chegar ao topo é manter o nível”. Obviamente que, como outros, podia ter obtido os mesmo resultados “nacionalizando” craques do Leste ou brasileiros. Não o fez por ter a noção de que isso, por um lado não fortalecia a elite de jogadores, por outro lado não assegurava a transmissão do sucesso entre gerações: “Se de cada vez que tivermos que substituir um jogador não tivermos ninguém à altura para essa função, então teremos que recomeçar tudo do zero”.

Como já deve ter percebido, há muito tempo que este deixou de ser um texto sobre voleibol. É sobre determinação, sobre confiança, sobre trabalho, sobre capacidade de luta, sobre a coragem de renovar. É, portanto, sobre a nossa forma de estar, que o português Eça escarneceu e o cubano Díaz soube interpretar.

E será sobre economia e empresas? Bem, pense nas elites, pense na idade média dos grandes gestores e empresários, pense nos dirigentes das associações empresariais e imagine que, todos eles, formam uma selecção nacional de voleibol. Nem Juan Díaz seria capaz de a por a ganhar. Por isso é tão necessário renovar.

Por Sérgio Figueiredo, director do Jornal de Negócios

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