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Mário Negreiros 17 de Dezembro de 2004 às 13:59

Simpatia

Lisboa prepara-se para comemorar os 250 anos do terramoto de 1755 e um frio percorre-me a espinha quando penso nisso.

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Pode acontecer outra vez e quando vejo o tamanho da crise de valores que se abate sobre nós compreendo melhor a histeria dos que buscam explicações morais para as grandes tragédias naturais.

Não seria por falta de culpados que uma possível repetição da tragédia deixaria de ser interpretada como castigo divino. Temo-los para todos os gostos, carne à vontade para tantos autos de fé quanto se julgue necessários ao serenar da ira celeste. Paulo Portas, por exemplo, apontaria o dedo aos banqueiros (assim mesmo, genericamente); eu seria mais específico e empurraria para a fogueira o arquitecto Taveira – não por algum ódio pessoal a esse senhor, nem sequer por ver nele alguém especialmente temível, mas porque dificilmente deixaria de haver alguma relação entre a construção das torres das Amoreiras e a destruição, por gesto do Grande Esteta, da cidade em que elas se vieram a erguer.

Sim, porque, a julgar pelo que vejo do programa da Câmara de Lisboa para as comemorações dos 250 anos do terramoto de 1755, tremores de terra são, essencialmente, fenómenos arquitectónicos e urbanísticos. Esse programa, aliás, reflecte precisamente a maneira como vivemos, hoje, o terramoto de 1755 – terramoto lembra Pombal, que lembra baixa pombalina, que lembra planeamento urbano, largas avenidas, futuro.

Não deixa de ser positivamente surpreendente que um povo tido e havido como pessimista, negativista, com tendências à depressão, à morbidez e à inactividade, associe o momento mais destrutivo da sua história ao homem e à obra do homem que comandou a reconstrução.

Não deixa, por outro lado, de ser perturbador verificar que, passados 250 anos, a dimensão humana de uma tragédia como aquela assume um plano secundário frente à dimensão urbanística e arquitectónica daquela mesma tragédia. O monumento ao reconstrutor é um marco fundamental no mapa da cidade de Lisboa, mas não faço ideia de onde se esconda algum monumento em memória dos mortos no terramoto de 1755 – se o houver.

Não há, de facto, nenhum mérito específico em ser soterrado pela laje de um edifício desmoronado, nem em ser desfeito por um tsunami. Mas os monumentos, as homenagens, os marcos à memória não são ditados só pelo reconhecimento de grandes méritos; as estátuas não são necessariamente equestres ou com leões amansados pela autoridade retratada. Os monumentos também podem ser meramente simpáticos, ou seja, podem retratar afinidades, e seria muito conveniente que os lisboetas de hoje lembrassem, com simpatia, a afinidade que há entre nós e os 20 mil (numa Lisboa com 250 mil habitantes) que morreram naquele dia 1 de Novembro de 1755 (e, já agora, dos 40 mil que morreram fora de Lisboa, no mesmo terramoto).

PS: Não é verdade mas afirmo e desafio qualquer um a provar que é mentira: seja por razões sismológicas, seja por idiossincrasias divinas, o estacionamento de carros em cima dos passeios favorece a ocorrência de terramotos. Tende cuidado!

PPS: Onde se meteram os cegos, os paralíticos, os bebés e as suas mães, toda essa gente que, com especial brutalidade e covardia, é impedida de andar pelos passeios? Viverão todos dentro de carros?

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