Fernando  Sobral
Fernando Sobral 26 de fevereiro de 2018 às 19:40

Síria rumo à paz?

A guerra na Síria, apesar do acordo de cessar-fogo, vai continuar. Os interesses em jogo são mais fortes do que a paz.

O acordo de cessar-fogo que poderá permitir o auxílio humanitário aos habitantes de Ghouta, a zona a leste de Damasco cercada pelo exército sírio, foi finalmente alcançado no Conselho de Segurança da ONU. Isso aliviará muitas consciências ocidentais, mas não implicará o fim do conflito. As tropas de Bashar al-Assad não descansarão enquanto não expulsarem os rebeldes islâmicos (protegidos pelos EUA) desse enclave. A batalha prosseguirá, depois de qualquer trégua, e para isso conta com o apoio da Rússia e do Irão. Há memórias históricas que convém não esquecer: em Dezembro de 2016 os islamitas e o governo também tiveram semelhantes "conversas" na zona leste de Aleppo. Sabe-se o resultado. Apesar do que dizem as potências ocidentais ("o massacre do século XXI", clamam, esquecendo o que tem feito a Arábia Saudita no Iémen, por exemplo), o "inferno na Terra" vai continuar até à destruição dos rebeldes da facção Nusrah (um rebento da Al-Qaeda e agora uma "força democrática" para Washington ou Bruxelas) ou da Jaish al-Islam (financiada por Riade). Damasco está a apostar tudo na conquista de Ghouta e a Rússia e o Irão sabem que isso é fundamental para que não caiam "rockets" ou expludam carros-bomba na capital síria, que tantos mortos também têm causado. De massacre em massacre se vai continuando esta guerra síria, depois do quase eclipse do Daesh. As imagens que surgem de Ghouta também só revelam uma parte do que se passa: curiosamente nelas não se vêem militantes islâmicos armados, só crianças feridas ou mortas e homens que as carregam ao colo. Não há islamitas armados por perto. Como se nesta carnificina só existissem armas de um lado. E elas existem: os russos estão a experimentar os seus novos Sukhoi, que serão depois utilizados na batalha seguinte, em Idlib. E há ainda um problema maior: e quando os sírios estiverem frente a frente aos curdos e americanos em Raqqa? Muito mais sangue, massacre e horror está a preparar-se.

 

Isto enquanto os EUA procuram reconciliar-se com a Turquia, potência fundamental na região e que ultimamente (face à "ameaça curda") se aproximou da Rússia e do Irão. Mas para Ancara há uma condição preliminar: o aliado mais importante dos EUA na Síria, o curdo YPG, facção síria do PKK turco (que é maioritário nas Forças Democráticas Sírias), deve retirar-se da zona norte da Síria. Isto enquanto os EUA se mostram disponíveis para vender novos mísseis a Ancara. Mas ainda há muito para resolver. É neste jogo de xadrez que decorre o conflito sírio. Sem data para terminar apesar das prometidas tréguas.

 

China/EUA: alternativa à nova Rota da Seda?  

 

A iniciativa chinesa de criar uma série de verdadeiras auto-estradas de comunicação terrestres e marítimas que consigam conectar a Ásia, a África e a Europa, conhecidas como nova Rota da Seda, está a causar a reacção de outras potências. Criar uma alternativa a esta ideia, através de vários projectos de infra-estruturas regionais, está a motivar os Estados Unidos, Austrália, Índia e Japão. O projecto destas quatro nações foi descrito na "Australian Financial Review" como uma possibilidade real, com base em documentos de um responsável norte-americano envolvido. E isto, claro, foi visto por Pequim como uma tentativa de conter o aumento da sua influência na reacção Ásia-Pacífico. Depois de ter estado reunido com o Presidente americano Donald Trump em Washington, o primeiro-ministro australiano Malcolm Turnbull tentou colocar o projecto em perspectiva, desmentindo que seja uma alternativa à ideia chinesa. Acrescentou que não se trata de nenhuma rivalidade típica dos tempos da Guerra Fria. 

 

Em Tóquio, também se desvalorizou esta aparente aproximação de vontades estratégicas dos quatro países. Acrescentando que as trocas de pontos de vista sobre assuntos de mútuo interesse é normal. Seja como for, no meio da visita de Turnbull a Washington, a China foi um tema em destaque. Ele tem referido que é necessário um enorme investimento em infra-estruturas na região, o que pode ser interpretado como um desafio à estratégia da China. E isso pode envolver os outros países da Parceria Transpacífico, o bloco comercial que envolve Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Singapura e Vietname, apesar do afastamento dos EUA. Turnbull também está a tentar um equilíbrio dos conceitos de "América Primeiro" de Trump com a sua própria estratégia de melhores relações comerciais com a China, sem esquecer que os EUA são o maior destino do investimento externo australiano e o seu mais importante aliado. Com um olhar no poder da capacidade de financiamento australiano e os parâmetros tecnológicos do Japão e da Índia, compreende-se a estratégia desenhada, que claramente agrada a Washington e que poderia ser uma alternativa à Rota da Seda chinesa. 

 

EUA: contra a Huawei

 

As agências de segurança nacional dos EUA já fizeram saber que não vêem com bons olhos a possibilidade de o gigante de telecomunicações chinês Huawei vender o seu equipamento 5G no país. Mais: já fizeram soar que estão preocupadas também com a sua possível venda em países ocidentais. Agentes americanos fizeram um "briefing" ao primeiro-ministro australiano Malcolm Turnbull, que visitou Washington, dizendo-lhe que a ciberespionagem era um dos maiores riscos na agenda de segurança electrónica dos EUA e da Austrália.

 

Macau: CGD sem "offshore"

 

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) deixou de ter uma sucursal "offshore" em Macau, ao abrigo de uma ordem executiva do chefe do Executivo, Chui Sai On, com data de 8 de Fevereiro. A ordem executiva revoga a autorização concedida por ordem executiva de 2013 para que aquele banco pudesse estabelecer uma instituição financeira "offshore", sob a forma de sucursal, na Região Administrativa Especial de Macau. Entretanto, Pedro Cardoso, presidente da comissão executiva do Banco Nacional Ultramarino de Macau, do grupo Caixa Geral de Depósitos, vai cessar a chefia da instituição financeira, sendo substituído por Carlos Cid Álvares, de acordo com a imprensa local. Pedro Cardoso, que se manteve à frente dos destinos do Banco Nacional Ultramarino durante quase sete anos, conseguiu nesse período aumentar o lucro da instituição de 373,1 milhões de patacas, em 2010, para 706 milhões de patacas em 2017.

 

Cabo Verde: Macau quer banco

 

O empresário de Macau, David Chow, anunciou na cidade da Praia ter apresentado o pedido de autorização para a criação de uma instituição bancária em Cabo Verde ao banco central do arquipélago. O empresário, que preside ao grupo Legend Globe Investment Company, assinou em Junho de 2017 um memorando de entendimento com o governo de Cabo Verde para a criação de uma instituição de crédito denominada Banco Sino-Atlântico. David Chow deslocou-se à Praia, capital de Cabo Verde, para o lançamento da primeira pedra da ponte que vai ligar a praia da Gamboa ao ilhéu de Santa Maria, onde ficará instalado o complexo turístico com casino que vai construir num investimento de 250 milhões de euros.

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comentários mais recentes
Miguel Nobre Leitão 08.03.2018

No enclave de Ghouta estão os extremistas islâmicos, e estes não são apoiados pelos EUA, mas sim pela Arábia Saudita.

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