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Adolfo Mesquita Nunes 18 de Junho de 2018 às 20:43

Só a política pode preservar a democracia liberal: os partidos políticos (III)

Os partidos, como qualquer associação, podem ser transformados, com um pouco de engenho, nas mãos de militantes que fazem da mentira e vitimização um modo de vida. É mais provável do que se pensa.

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A afirmação do populismo faz-se por oposição aos partidos, fazendo deles parte do problema. No discurso dos populistas, os partidos são associações empenhadas em manter o poder para tratar dos seus interesses e já deixaram de ouvir as pessoas: são símbolo da degradação do sistema e assim devem ser substituídos ou humilhados, porque sem esse gesto o sistema nunca deixará de virar as costas às pessoas.

 

Daí que os populistas passem tempo a reforçar a sua condição de "outsiders": nada têm que ver com o sistema e o seu propósito é o de o regenerar. E as redes sociais são um instrumento precioso nessa afirmação porque funcionam como mecanismo de inclusão: permitem, e bem, dar voz aos "outsiders", trazer as suas afirmações, venham de quem vierem, para o espaço público.

 

Como a democracia não funciona sem partidos, a afirmação populista passa pela criação de novas formações, funcionando como partidos antipartidos, ou pela transformação dos partidos tradicionais, num processo mais sofisticado em que um dirigente reclama a condição de excluído ou marginalizado, e através desse estatuto, assume um discurso regenerador. É um erro pensar que a ameaça populista é sempre exterior ao sistema, devendo ser combatida criando barreiras à entrada. Os partidos, como qualquer associação, podem ser transformados, com um pouco de engenho, nas mãos de militantes que fazem da mentira e vitimização um modo de vida. É mais provável do que se pensa.

 

E como têm os partidos, um pouco por todo o mundo, reagido a estes movimentos? Da pior forma, incorporando, dando como certas, as críticas dos populistas.

 

Vejamos, por exemplo, a crítica de que os partidos quiseram deliberadamente virar as costas às pessoas para poderem tratar das suas corruptelas. A tese é tentadora, mas não há partido que não tente chegar a mais gente, convencer mais gente: sem isso não há votos. Claro que os partidos cometem muitos erros, tomam péssimas decisões, seguem más políticas, albergam gente corrupta. Mas isso não corresponde a uma vontade deliberada, estratégica, sistémica, de pôr os partidos a explorar e a enganar as pessoas.

 

Quero eu dizer que os partidos não têm problemas, muitos deles graves? Claro que não. O que quero dizer é que, incorporando essa crítica, muitos partidos começaram a cometer erros graves: passaram a viver para as redes sociais, cavalgando as questões do dia porque querem estar ao lado das pessoas, passaram a apresentar independentes como condição de qualidade, assumindo que os partidos a não geram, passaram a fazer discurso antissistema, afastando gente da política. 

 

Há mais erros, mas estes chegam para mostrar o ponto: na ânsia de mostrar o quanto os populistas estão errados, muitos partidos como que confirmam, sem o dissolver, o discurso dos populistas; e, pior, na ânsia de ouvir as pessoas, tomam as redes sociais e a agenda veloz do dia como preocupações gerais, tomando posições, anunciando medidas, governando, com base no que estas ditam. E são pressionados para isso, diga-se, por todos: jornalistas, comentadores, redes sociais, eleitorado.

 

Ora, não está provado que atender às indignações diárias, aos pedidos diários, às opiniões diárias, aos preconceitos diários, seja a melhor forma de resolver os problemas das pessoas. Pode parecer estranho, contraintuitivo até, mas estou convencido de que é um erro, e que vamos pagar muito caro, esta ânsia de querer responder às indignações do dia como forma de provar a abertura dos partidos à sociedade, relativizando o espaço de mediação, ponderação, que a democracia representativa oferece.

 

E se for o contrário? E se um dos principais problemas dos partidos, do sistema, for precisamente essa escravidão à agenda diária das indignações, sem ponderação, sem mediação?

 

Volto a isto na próxima semana, terminando esta série de artigos.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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