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Luísa Bessa lbessa@mediafin.pt 21 de Dezembro de 2006 às 13:59

Sócrates a apanhar as canas

Os meios políticos e económicos portugueses parece que vivem em mundos diferentes. Pelo menos, em países diferentes. Os empresários vivem em clima de lua-de-mel prolongada com José Sócrates. Mais com o primeiro-ministro do que propriamente com o Governo.

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Como ainda neste mesmo local escrevia há dias o director Sérgio Figueiredo: "Sócrates afirma-se junto da elite empresarial". Que está claramente impressionada com a capacidade de liderança e de tomar decisões do primeiro-ministro. Que se revê no sentido das reformas postas em marcha, seja na Segurança Social e na Saúde, ou as promessas de reforma na administração pública. E que reflecte a mudança de clima na economia.

No país político, a avaliação positiva de Sócrates é menos consensual, apesar de alguns sinais encorajadores vindos da área do CDS-PP. Os partidos à direita identificam-se com o sentido de muitas das medidas tomadas, o que torna a oposição uma exercício particularmente ingrato. Que o diga Marques Mendes, com dificuldade em encontrar o tom certo de crítica, sob marcação cerrada pelos novos barões laranjas com aspirações à liderança do PSD.

Apesar do Outono terrível, o Governo resiste nas sondagens. A receptividade da opinião pública já não tem paralelo nalguma da opinião publicada mais influente, crescentemente distanciada e crítica da acção do Executivo. O Governo de Sócrates perde-se sobretudo por questões de forma. A capacidade de decisão facilmente resvala para a arrogância, a capacidade de iniciativa pode cair em excessos de propaganda e tentativas de controle da informação.

Há falta de foco em muitas das críticas à eficácia da "central de informação" governamental. Por definição, qualquer governo trabalha para liderar a agenda mediática e não deixa de ser irónico que este seja criticado pela eficiência e profissionalismo da sua máquina. A responsabilidade está sobretudo do lado dos meios de comunicação, obrigados a um profissionalismo redobrado.

Mas esta semana, dois episódios tornaram-se excelentes exemplos de como mesmo a máquina mais profissional comete erros grosseiros. A rapidez com que Manuel Pinho formalizou a demissão do presidente da ERSE, impedindo na prática a sua comparência na Assembleia da República para debater o aumento das tarifas da electricidade, teve o efeito contrário do pretendido. Em vez de esvaziar a polémica fez inchar o balão. As críticas aos ataques à independência de uma entidade reguladora, reconhecidamente eficiente e independente, subiram de tom. Apoiadas agora pelas suspeitas sobre um acto de carácter censório. Bem pode José Sócrates afirmar com ar ofendido que o seu Governo "não impediu ninguém de ir à Assembleia da República". É preciso que o discurso bata certo com a realidade e neste caso não bate.

O segundo exemplo é o acordo entre patrões e sindicatos sobre a evolução do salário mínimo para os próximos cinco anos, que contempla o valor de 500 euros em 2011. O acordo foi classificado como "histórico" e apresentado pelo próprio primeiro-ministro. Pois agora o presidente da CIP, em declarações ao Jornal de Negócios, vem dizer que o referencial dos 500 euros é apenas "um desejo" e que a CIP faz depender a sua concretização de um conjunto de condições, algumas que dependem de negociação, outras que dependem da economia. A ser assim, o "acordo histórico" pode acabar por não o ser. Mas será que quem atirou os foguetes vai aparecer para apanhar as canas?

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