Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 08 de março de 2018 às 21:12

Somos a grande casa da direita

Somos a grande casa da direita, cabemos cá todos, e tenho pouquíssimo tempo a perder com gente que passa a vida a dizer quem cá não devia estar em vez de agregar: porque, se depender deles, acabamos em 4% outra vez.

O programa do CDS é claro, vem de 1993, e ninguém o questiona. A base ideológica do CDS está estabilizada, resulta de 40 anos, e é aceite por todos. A função do CDS é histórica, marcada no voto constitucional, e é a de alternativa ao socialismo. O espaço do CDS está definido, do centro à direita, a casa das direitas. A matriz do CDS é consensual, a democracia-cristã, aberta a conservadores e liberais.


Nada disto está em risco. O que falta não é definir a base ideológica do CDS, é alargar a sua base eleitoral.

Porque a ideologia do CDS não nasceu para estar numa prateleira, em aperfeiçoamento escolástico. Ela tem um propósito: transformar Portugal num país mais próspero, livre, com igualdade de oportunidades, onde cada um encontra forma de cumprir o seu projeto de felicidade e o onde o Estado vem depois, não antes, do Homem e da sua dignidade.


A base ideológica do CDS nasceu para servir de programa de governo - algo que nunca sucedeu plenamente, porque nunca fomos a primeira força. E essa é a questão: como convencer as pessoas a votar no CDS? Chamam a isto pragmatismo, eu chamo bom senso. Se quisesse estar num clube de pensamento, ia para um. Se quero estar num partido, é porque quero mudar o país. Como consegui-lo?


Depois de décadas de estratégias diversas, com as dificuldades de cada uma, mas sempre com resultados insatisfatórios, descobrimos, com Paulo Portas, o caminho em 2009, chegando aos 10%, caminho continuado e que nos trouxe 12% em 2011. Como se fez?


Foi abandonando a ideologia? Não. Foi apresentando propostas que a concretizavam: novos problemas, novos temas, novos protagonistas, novas formas de comunicar, mas sempre pensando em resolver problemas com boas soluções. Foi passando certificados de autenticidade ideológica? Não. Foi reconhecendo que o nosso espaço comporta matizes, com a democracia-cristã como trave mestra, que vai produzindo essas soluções. 


Esse foi o caminho do "há cada vez mais gente a pensar como nós". Dizendo às pessoas para olharem para as propostas, esquecendo os preconceitos que tinham, chegando às pessoas que nunca votaram em nós, preferiam outros partidos mesmo quando gostavam de nós, que são de direita mas se julgam de esquerda porque ouviram dizer que é ela que se preocupa com os mais pobres. Foi assim que começámos a crescer, a chegar a mais gente, aos mais novos.


Já então nos diziam que a estratégia era errada, urbana, que o CDS ia desaparecer se não centrasse o discurso na ideologia. O tempo provou o contrário, como se não bastasse a História: sabemos como chegámos aos 4%, cheios de razão, melhores do que os outros, mas a desaparecer; sabemos como chegámos aos 8%, agarrando nichos, sem força para determinar um governo; e sabemos como chegámos aos 12%. Porquê desistir? Não perdemos a identidade então, não a perderemos agora.


Conheço a tese de que o eleitorado fora de Lisboa se afastará se não falarmos de ideologia, que focar o discurso nas propostas é coisa de menino urbano. É o contrário, é uma elite de Lisboa que, sem conhecer o interior, o ficciona e procura agradar: nunca resultou. E fui provar: a votos na Beira Interior, zona nada dada a meninos de Lisboa, com discurso focado, obtive o melhor resultado em 40 anos, 20% na cidade, 15% no concelho. Talvez o conservador interior, que curiosamente pouco vota CDS, seja mais cosmopolita do que os teóricos de Lisboa pensam.


Conheço o argumento de que há vários partidos no CDS, cada um com a sua ideologia, inconciliáveis a breve trecho, e estamos a ver quem ganha. É falso, e é o nosso programa que o diz. Somos a grande casa da direita, cabemos cá todos, e tenho pouquíssimo tempo a perder com gente que passa a vida a dizer quem cá não devia estar em vez de agregar: porque, se depender deles, acabamos em 4% outra vez.    


Tornar o CDS a primeira, natural e descomplexada escolha do centro e da direita é, pois, o objetivo, começado em 2009. Objetivo difícil, mas próprio de um partido sem crises de identidade, seguro da sua ideologia e do seu espaço. E Assunção Cristas tem, como já começou a comprovar-se, o rosto, a capacidade, a liderança e a personalidade mais adequada para o alcançar.

 

O artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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