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Virgínia Trigo 10 de Janeiro de 2014 às 00:01

Sorrir com dez dentes

É uma falácia acreditarmos que a idade traz sabedoria, mas uma coisa que a idade infalivelmente traz é experiência. É em nome dessa experiência e talvez até de um pouco de sabedoria que vos trago estas histórias. Aquilo que toda a gente sabe, na realidade ninguém sabe.

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Já passaram mais de quinze anos desde a última vez que estive em Qingdao e, nesta nossa descida sobre a cidade, pode-se ver bem a enorme cintura industrial e o fumo das muitas fábricas que a povoam. Uma delas haverá de provocar um acidente muito sério, mas ainda faltam dois dias. Este garrote que se aperta sobre a cidade empurra-a contra o mar, contra as muitas praias de areia branca, as enseadas e as ilhas em silhueta contra o céu. Uma cidade bonita e até estranha no contexto das cidades chinesas. Não é plana, mas antes se desenha sobre múltiplas colinas, um sobe e desce por entre os muitos edifícios de arquitetura alemã pois, como é seu costume, nos 16 anos em que ocuparam a cidade (1898 – 1914)) os alemães fartaram-se de trabalhar e as marcas estão por todo o lado. Um andar a pé agradável, quase sem poluição apesar das fábricas, cortesia do Mar Amarelo ali mesmo à nossa frente. Entro numa dessas casas, um café na China que reconstitui uma atmosfera alemã e faço-me entender pela dona, uma jovem mulher de ar sofisticado e pós-moderno. Seria ela uma das lindas meninas a quem, há quinze anos atrás eu ensinei a arte (e a técnica) de um sorriso?

Foi em 1997 que fiz uma primeira visita a Qingdao a convite de uma universidade local. Era uma visita apenas de cortesia mas, como é hábito na China, logo se transformou num atropelar de acontecimentos, numa aposta em preencher qualquer momento que eu tivesse livre, em múltiplas agendas de contingência que rapidamente iam substituindo a agenda muito estruturada e aparentemente recreativa que eu semanas antes recebera. E, numa delas, li que era suposto eu dar um seminário às alunas do 4.º ano de turismo sobre "O Encanto de um Sorriso". Quem já esteve em circunstâncias semelhantes na China sabe que nada há a fazer, uma vez aceite um convite perdemos o controlo do nosso tempo e dos eventos que nele decorrem. Nada há a fazer a não ser improvisar. Foi o que fiz, mentalmente, enquanto um carro me conduzia às quarenta meninas que se encontravam na sala. Sorriam, tapando a boca com a mão e encolhendo os ombros ao ritmo leve de um suspiro.

Não sei bem o que se passou a seguir, mas recordo-me que lhes dei um trabalho de casa: que se pusessem frente ao espelho e treinassem um sorriso com dez dentes bem visíveis, cinco de cada lado a partir do meio e que o fizessem tantas vezes até que se achassem incrivelmente bonitas e as mãos se afastassem da cara.

Um outro legado da permanência alemã é a famosa cerveja Tsingtao, uma forma antiga de escrever o nome da cidade. É apenas uma cerveja, mas tem uma história tão interessante como a própria China. Em 1997, uma das agendas incluía uma visita à fábrica e foi assim que, um dia às dez da manhã, me vi a beber cerveja estranhamente acompanhada de um copo de gelado sob o olhar ansioso de seis pares de olhos. Então? Sobre a cerveja declarei com sinceridade que era boa. Nessa altura a Tsingtao já começava a ganhar uma certa aura. Dois anos antes, em 1995, Jack Ma o legendário fundador da empresa gigante do comércio electrónico que dá pelo nome provocador de Alibaba, na sua primeira visita aos Estados Unidos e no seu primeiro contacto com a internet, procurou encontrar a cerveja Tsingtao, mas só lhe apareceram marcas americanas, japonesas, europeias e sul-africanas. Jack não sabia nada sobre computadores e levou algum tempo a escrever a palavra "beer", mas havia uma eletricidade no ar, uma súbita descoberta de que algo mais importante do que aquele momento estaria para acontecer e foi quanto bastou para que, de regresso ao seu país, em abril desse mesmo ano, Jack tenha iniciado as primeiras páginas amarelas "on-line" da China génese da Alibaba a maior empresa do mundo de serviços "on-line" B-to-B.

É uma falácia acreditarmos que a idade traz sabedoria, mas uma coisa que a idade infalivelmente traz é experiência. É em nome dessa experiência e talvez até de um pouco de sabedoria que vos trago estas histórias. Aquilo que toda a gente sabe, na realidade ninguém sabe.

Professora no ISCTE Business School

Artigo escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico

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