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Fernando Braga de Matos 30 de Setembro de 2011 às 11:51

Sortido fino

(Onde o autor, em crise de inspiração artística e sem a sua musa preferida, Sócrates, para estimular a bílis, decide deambular por três temas enfadonhos da semana, protagonizados por gente igualmente entediante, e não promete que o resultado final não seja a condizer, em estilo bocejo: Afinal quem escolhe o ministro da economia, o Presidente da República e vozes internacionalmente influentes para assuntos do dia arrisca-se a fazer diminuir a tiragem do jornal).

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1. Segunda-feira, lá gravei o Prós e Contras porque o centro da atenção era Álvaro Santos Pereira, cujo silêncio estimulava inúmeras especulações, nomeadamente a de um retiro em mosteiro beneditino para afinar a sua infame agenda neo-liberal. A Campos Ferreira, sempre atenta veneradora e obrigada com os seus convidados, lá tirou o homem da sua reclusão e ei-lo revelando-se com loquocidade tão vibrante que assombrou este desprevenido observador. Desde que a taxa social única em versão agressiva foi posta em banho-maria, a plebe ficou sem saber como vai a economia arrancar , subfinanciada e sem qualquer dopagem. Álvaro não apresentou outro milagre, mas apenas um paliativo, a moratória de um ano das dívidas das PME. Porém, fundamentou a sua fé no futuro, lembrando a aposta nos portos e na velocidade alta para mercadorias, a entrada de capital estrangeiro, com um CREN alavancado e as privatizações (além de um investimento mistério), o estímulo à concorrência em mercados estiolados, a racionalização de um sistema energético desequilibrado por subsídios, a flexibilização do mercado laboral mais rígido da Europa (os gráficos são sempre boa prova), esquemas para promover o essencial capital de risco... Enfim, nada que não se presumisse por simples ilação. Porém, mesmo os melhores produtos exigem promoção e os portugueses bem precisam de ver a luz ao fundo túnel depois de anos a ver túnel ao fundo da luz, mas agora metidos numa verdadeira emergência. Álvaro vê-se que acredita no que diz, mas tudo demora tempo e ele não teve o cuidado de, ao menos, deixar isso insinuado. Também não pude deixar de, por momentos, com tanta maravilha, achar similitudes róseas com o discurso banha-da-cobra de quem nós sabemos e ainda não esquecemos. Lagarto, lagarto...

2. Continuando nesta fatigante agenda político-televisiva, também vi a entrevista do Presidente da República a Judite de Sousa, ainda longe da Amanpour, (a Judite, não o Cavaco). Este foi mesmo "a oeste nada de novo", mas ainda bem que assim foi, pois é como bastião da previsibilidade e estabilidade que os cidadãos o querem e apreciam. Daí, penso, a sua popularidade nas sondagens - embora, actualmente, ultrapassado no lugar cimeiro por Passos Coelho, um excelente sinal, pois só com muita confiança popular no comando conseguirá o País levar avante o caminho de salvação nacional em que se encontra, no meio de tantos sacrifícios.

Cavaco, o perene macroeconomista, é sempre rigoroso e fiável, até na sua interpretação minimalista dos poderes do Presidente, que vê resumidos na capacidade de influenciar, nomeadamente pela palavra ao povo, como ele, aliás, afirmou. A cooperação estratégica é, então, um elemento essencial na prossecução dos desígnios nacionais e, ainda mais, o apoio claro (mas não incondicional) à política do Governo. As coisas são tão difíceis como está o País e como se tornou o ambiente internacional envolvente que o ânimo da população, desde a sofredora à desiludida, passou a ser um elemento crucial do jogo, e mesmo gente briosa como é a nossa necessita de espírito ao alto, como se invoca no final da missa. Cavaco salmodiou bem.

3. A desorientação geral da gente que manda ou influencia o mundo é absolutamente surpreendente. Quando ouço políticos a queixarem-se dos mercados desaustinados, não deixo de pensar que, com essa população a perorar na cacofonia ensurdecedora, inepta e contraditória que todos os dias tentamos digerir, a situação não podia ser outra. Como hão-de os investidores, os agentes económicos e os decisores em geral agir de forma mais ou menos inteligente quando quem gere e fomenta a incerteza são políticos poderosos e comentadores eméritos sem freio nos dentes, os quais substituíram bancos sem freio nos dentes?


Advogado, autor de "Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). fbmatos1943@gmail.com
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