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Speedy Castilla

Encostado à parede, bloqueado pela ausência de ideias, projectos e fundos para a rede de alta velocidade, o Governo português baixou respeitosamente a cabeça, engoliu à pressa os discursos da campanha eleitoral e decidiu-se por uma fuga em frente.

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Nunca como hoje a nossa sina esteve tão ligada à península. Se as linhas do coração espanhol já dominavam o imaginário cor-de-rosa português, agora são as próprias linhas da vida a serem traçadas em Madrid. José Maria Aznar não encontrou forma de resistir à pressão do alcaide de Badajoz e fez-lhe a vontade, ao esticar o TGV de Cáceres até à fronteira do Caia.

Sabendo de antemão que não teria de dar grandes explicações aos portugueses sobre as suas escolhas, anunciou que os pontos de ligação à rede ibérica seriam em Badajoz e Huelva.

Era pegar ou largar. Encostado à parede, bloqueado pela ausência de ideias, projectos e fundos para a rede de alta velocidade, o Governo português baixou respeitosamente a cabeça, engoliu à pressa os discursos da campanha eleitoral e decidiu-se por uma fuga em frente. Nos comboios, como nos portos marítimos, dominará a lógica dos interesses “ibéricos” de Madrid. Viva Castela!

Na verdade, só podemos estar gratos à determinação dos espanhóis. Receava-se o pior após os compromissos solenes assumidos há dois anos pelos actuais governantes. A sanha anti-desenvolvimentista foi tal que todos os projectos infra-estruturantes para o País foram sucessivamente acusados de “megalómanos” (defeito tipicamente socialista), “inúteis”, “aberrantes” ou mesmo “anti-sociais”. As duas principais figuras do actual Governo fizeram, à época, ataques incríveis de leviandade e populismo aos projectos do TGV, do novo aeroporto e da terceira travessia do Tejo. Prometeram dar combate a todos os “elefantes brancos” e que não avançariam com nenhuma grande obra enquanto existissem pobres e hospitais para construir.

Dois anos volvidos, o Governo faz uma espectacular pirueta e recupera os projectos do TGV e da terceira ponte sobre o Tejo. A contragosto, sem trabalho de casa nem margem negocial com os espanhóis, percebe que não tem por onde fugir e opta por lançar, com uma leveza de prestidigitador, um mapa encantado onde, lá para 2018, se promete ir ao encontro dos anseios de quase todas as regiões e grupos de interesses nacionais. Nada disto é sério.

A política feita assim nunca conseguirá conquistar os portugueses. Falta-lhe visão, sentido de Estado, rigor, respeito pelos cidadãos. A forma atabalhoada como o projecto foi anunciado é bem reveladora da total ausência de sustentação técnica da malha proposta. Não se conhece qualquer estudo de prospectiva (a 15 ou 20 anos) que justifique - dos ângulos económico, ambiental, demográfico e viário – as opções tomadas. A programação avançada é incipiente e, do ponto de vista temporal, exageradamente longa, talvez para dilatar no tempo as necessidades financeiras e o próprio processo de decisão. Porquê começar somente em 2006? Como se explicam sete anos de obra para a linha Lisboa-Porto ? Que razões levam a programar o início da construção do troço Aveiro-Salamanca para 2011? Como e onde se interliga o novo aeroporto de Lisboa? Há um mar de questões por esclarecer neste dossiê e aflige verificar que não existem respostas porque se perdeu demasiado tempo. As incertezas económicas são fortes e não se cuidou de as analisar antecipadamente. Quais os limiares de rendibilidade das linhas de 350 km/h, cujos custos de exploração são invulgarmente elevados? Haverá mercado? As ligações de mercadorias para o centro da Europa ficarão asseguradas de modo economicamente viável? Quais as garantias de financiamento global?

Os riscos da rede de alta velocidade são elevados mas vale a pena ir a jogo. A malha nascida na cimeira ibérica é satisfatória e a surpresa Évora-Faro poderia ser interessante se não tivéssemos de esperar quinze anos para a ver concluída. Hélas, o modo como o processo tem sido conduzido (?) politicamente, a ligeireza na sua preparação e a insuportável lentidão do investimento fazem-me recear pelo projecto, tal como pela sinceridade das intenções. É duvidoso que exista uma verdadeira vontade política em prosseguir com a pujança e a determinação desejáveis. Juro que pagava um jantar a quem me dissesse o que verdadeiramente pensa a drª Manuela Ferreira Leite sobre a alta velocidade.

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