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Adolfo Mesquita Nunes - Advogado 06 de Agosto de 2018 às 21:04

Tão amigos do serviço público que eram, tão calados que andam  

Esta maioria de esquerda há muito mostrou que, para ela, os serviços públicos só têm uma componente que importa cuidar, a dos funcionários.

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Três orçamentos depois, que serviram para repor rendimentos, implementar as 35 horas e, segundo o discurso oficial, virar a página da austeridade, é preciso lata para a maioria de esquerda vir dizer que a culpa do que se passa nos serviços públicos, da ferrovia à saúde, é do governo de direita.

 

À beira do quarto orçamento das esquerdas, sem troika, sem intervenção externa, sem "rating" de lixo, com crescimento, com enquadramento favorável do BCE, com vacas a voar, o evidente colapso dos serviços públicos, noticiado diariamente, agravado diariamente, havia de ser culpa de quem?

 

Claro que os serviços públicos portugueses vivem com dificuldades há muitos anos, claro que essas dificuldades não são de agora, claro que essas dificuldades nasceram e se desenvolveram ao longo de vários governos de várias cores. Mas o que é também claro, indesmentível até, é que essas dificuldades antecedem, em muito, a chegada da troika a Portugal.

 

Mais do que isso, é claro, evidente, que só por milagre essas dificuldades poderiam ter sido resolvidas durante uma duríssima intervenção externa que os socialistas nos deixaram de presente. Se nem as esquerdas unidas no amor aos serviços públicos as resolveram em três anos, como podem estas exigir que o governo PSD/CDS as tivesse resolvido no tempo da bancarrota e da intervenção externa? É preciso topete. 

 

Mas esses problemas, de que hoje a maioria de esquerda tanto fala, eram conhecidos de todos, negados por ninguém. Por que razão não houve, nestes três anos, preocupação com eles? Como é isto possível, tudo o que está a passar-se na saúde e na ferrovia, com um Governo que fala tanto de serviços públicos, com uma esquerda sempre com os serviços públicos na boca?

 

Tudo isto é possível porque esta maioria de esquerda há muito mostrou que, para ela, os serviços públicos só têm uma componente que importa cuidar, a dos funcionários. Quero eu dizer que essa componente não é essencial? Claro que é essencial; sem ela nenhum serviço público é exercido, prestado. O que quero dizer é que essa componente não é a única, que além dos funcionários está a qualidade, os meios, a condição da prestação desses serviços - tudo condições igualmente essenciais para a existência de bons serviços públicos. Só que essa componente não fala, não tem sindicatos, não tem o telefone dos líderes da esquerda: e como tal foi ignorada, por exclusiva responsabilidade e opção das esquerdas ao longo dos seus três Orçamentos do Estado. 

 

A maioria de esquerda pretendeu fingir que os serviços públicos não tinham problemas de maior, que o mundo e o país e a justiça se resumiam à reposição de rendimentos e às 35 horas e às reversões (sim, reversões em matéria de transportes, meramente ideológicas, e com os resultados que estão à vista), e assim optou por exclui-los das preocupações e das prioridades. Vem daqui, aliás, desta opção, o recorde deste Governo tão amigo dos serviços públicos: o mais baixo investimento público desde que há registos em Portugal.

E onde está hoje o Bloco e o PCP enquanto diariamente somos confrontados com o colapso, do ponto de vista dos utentes, do serviço público ferroviário? Andam calados, ausentes, a tentar passar de fininho. Se acaso a CP fosse empresa privada, concessionária, não mais sairiam das televisões, de panfleto na mão pelos comboios do país, a pedir nacionalizações e a prometer mundos e fundos. Mas como a CP é empresa pública, dependente do Orçamento do Estado que as esquerdas apoiam e aprovam, não há cá amor ao serviço público que os faça sair do silêncio em que se encontram.   

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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