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Luísa Bessa lbessa@mediafin.pt 01 de Março de 2006 às 13:59

Teste europeu

O sector da energia está a proporcionar bons «case studies». O Governo espanhol não consegue disfarçar o incómodo perante o aparecimento, sem ser convidada, da EON alemã a lançar uma oferta sobre a Endesa. Depois de ter viabilizado a oferta da Gás Natural

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Queria um «campeão nacional espanhol», saiu-lhe um campeão mundial. A medir as palavras com precisão cirúrgica, veremos como sai desta sem um gesto salvador da Gás Natural promovendo uma revisão de preço, que o mercado espera e incentiva.

Enquanto Madrid reflecte, Paris toma medidas rápidas. O causador da perturbação é a italiana Enel, que aliás também já apareceu por Espanha, a disponibilizar-se para apoiar a Gás Natural. E que fez a Enel? Há uma semana anunciou o interesse na Electrabel belga como alvo para a sua estratégia de internacionalização. Acontece que a Electrabel pertence desde 2005 ao grupo Suez e os italianos deixaram no ar a ameaça de que poderiam avançar directamente sobre o Suez para chegar à participada belga. Tanto bastou para que no sábado à noite o próprio primeiro-ministro de França, Dominique de Villepin, anunciasse oficialmente a fusão entre o Suez e a Gaz de France (onde o Estado detem 80%) criando um dos maiores grupos mundiais no sector da energia e do ambiente.

A resposta pronta de Paris não surpreende ninguém, vinda de onde, há meses, Governo e oposição falaram em uníssono para defender a Danone face a uma hipotética ofensiva hostil da Pepsico norte-americana. Se o «tesouro industrial francês», aliás, criado por um grego em Barcelona, mereceu debates tão apaixonados, que dizer de um das mais importantes conglomerados franceses? E isto depois de em Dezembro ter proposto legislação para proteger 11 sectores de «takeovers» estrangeiros.

Quem não apreciou o gesto foram os italianos, que criticaram duramente «a violação do direito comunitário e do mercado livre». Ficou-lhes bem mas ainda estão frescas as manobras para impedir a compra do banco Antonveneta pelo ABN Amro holandês ou do banco Nazionale del Lavoro (BNL) pelo BBVA espanhol, que entretanto deixou o caminho livre para o BNP Paribas. Mais sarilhos à vista.

Em Portugal, se a oferta da Sonaecom sobre a PT não tem para já os ingredientes necessários para despertar o nacionalismo, descontando algumas aflorações em torno do financiamento espanhol, seria curioso apreciar a reacção do Governo, partidos e líderes de opinião perante uma eventual oferta concorrente liderada por capitais estrangeiros.

Não somos ingénuos. Sabemos que é importante manter no país centros de decisão, que permitam valorizar as competências nacionais.  Mas esse objectivo não pode ser concretizado à custa dos consumidores, que pagam mais em mercados protegidos do que liberalizados, e muito menos em violação da legislação europeia da concorrência e do mercado interno. E quanto à necessidade de manter o controlo nacional de empresas estratégicas, é difícil não concordar com Rui Vilar, quando diz que «para podermos ter sectores em mãos nacionais (...) muitas vezes teremos de chegar à situação limite que é a de ‘Nacional igual a Estado’».

A recente onda de F&A será uma oportunidade de ouro para a Comissão Europeia fazer doutrina. Bruxelas não pode deixar de se pronunciar sobre a fusão Suez/GDF ou sobre a oferta da E.ON sobre a Endesa. Será um bom teste. Quase 20 anos depois dessa iniciativa solitária e emblemática que foi a OPA da Olivetti sobre a Société Générale de Belgique.

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