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Mário Melo Rocha 18 de Setembro de 2006 às 13:59

Think tanks

Faz sentido que em tempos de incertezas se procure indagar o futuro. Talvez isto explique um fenómeno recente à escala europeia – o do desenvolvimento dos «think tanks».

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É na dúvida que se pode fazer luz e nos tempos que correm os «laboratórios de ideias» podem ajudar a desanuviar céus carregados.

Coloquemos as coisas em três planos. Primeiro plano: que causas explicam este desenvolvimento à escala europeia? A meu ver duas, de méritos diferentes. Uma radica no facto da construção europeia ser hoje, em larga medida, uma construção intelectual. Depois de ter sido uma (re)construção económica e social, de sucesso indiscutível, e a seguir a uma construção política, de sucesso intermitente, a construção europeia a 25 é, em larga escala, um exercício intelectual em que a régua é a massa cinzenta e o esquadro um conjunto alargado de neurónios. Nela e no actual estado de coisas, os intelectuais têm várias palavras a dizer. Não podem desdizer o que os políticos quiseram, alargando a mais dez de uma só vez. Mas tentarão explicar como se gere a coisa. Outra causa tem um mérito menor. Decorre da ideia fixa, embora nunca assumida e variadas vezes negada, da necessidade de dar resposta aos americanos que, de há muito, usam os seus próprios «laboratórios de ideias», ainda que nem sempre bem. Segundo plano: que leitura política se deve fazer do desenvolvimento acelerado destes «laboratórios»? Um recentíssimo estudo de um deles (que repisa um estudo de finais de 2004) usa uma série de critérios para classificar os «think tanks». De entre esses critérios avultam os de «não serem responsáveis pelas acções da governação», de «procurarem manter a liberdade de investigação e não representarem qualquer interesse particular» e de «procurarem, de maneira explícita ou implícita, agir em nome do interesse público». Ora, um perfil assim traçado afasta-se, expressamente, de uma espécie de «think tanks» dos partidos políticos (quando os há) e retira-lhes, tacitamente, o peso e o rigor que só a isenção confere. Por outro lado, se o desenvolvimento exponencial dos «think tanks» ocorre, é porque alguém os ouve. Mas com aqueles perfis, quem os ouve salta por cima dos partidos políticos e até das instituições ou de outros estamentos instituídos, de que os sindicatos são exemplo. O que, sem dúvida, fragiliza uns e outros. Isto significa a introdução de um elemento novo nas democracias europeias e de um novo arrumar dos edifícios políticos. No mínimo, significa a introdução de um reforçado peso de um novo grupo de pressão. Terceiro plano: o desenvolvimento destes «laboratórios» é possível em Portugal? Com as características descritas, possível é mas não é provável. O diminuto grau de probabilidade decorre de uma razão muito simples: o enorme peso do Estado e dos interesses que daí advêm. Os «laboratórios de ideias» portugueses, a existirem, dependem em larguíssima medida do apoio do Estado. O Estado, num dado momento, é preenchido por um partido nos postos executivos. Não é crível e, para muitos é mesmo inconcebível, que um «laboratório» pense ideias para o «interesse público» não coincidentes com a concepção que o partido no poder tem de «interesse público» nesse exacto momento. A partir daqui não há ideias que resistam nem «laboratório» que as experimente. Problema similar a outro. No fundo, Portugal tem um problema de escala: em determinados patamares toda a gente se conhece. E aí, frequentemente, os critérios de racionalidade são substituídos pelos de conhecimento pessoal. Ou seja: em bom rigor deixa de haver critérios.

Havia uma solução para as candidaturas a «think tanks» portuguesas: retirá-las da esfera do Estado e aparentados e potenciá-las por fundações. Mas para isso era preciso que na memória do fundador existisse um cantinho que se lembrasse destas coisas.

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