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Baptista Bastos - Cronista b.bastos@netcabo.pt 18 de Março de 2016 às 10:43

Todos nós estamos na encruzilhada

A futilidade tomou a dianteira sobre o essencial, e atinge, muitas vezes, a forma da abjecção com as perguntas feitas aos mandantes, sem se curar de saber as causas das coisas.

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(Aos meus camaradas mais novos de jornalismo)

Portugal não manda em Portugal. Quase sempre assim foi; agora, porém, a coisa torna-se humilhantemente clara. Sem eleições, com a decidida imposição da vontade germânica e a aquiescência desavergonhada da França de François Hollande, Angela Merkel tornou-se a imperatriz da Europa, e a Alemanha a cabeça de um império repleto de iniquidades. A peregrinação de dirigentes de Estados europeus a Berlim é repugnante pela subserviência. A União Europeia é um ludíbrio, e parece que só poucos recalcitram.

Um artigo de Varoufakis, antigo ministro grego, revela que as mentiras propaladas sobre a decadência dos regimes que fogem à influência da União Europeia, e a prosperidade alcançada por aqueles que abraçam, comovidos, essa influência, é um facto sórdido que envolve a Imprensa colaboracionista. Poucos jornais e quase nenhuma televisão do Continente escapam à sarna do embuste. Aqui, em Portugal, a velhacaria não tem outro nome. Já disse e repito: o "economês", que assaltou os meios televisivos, com especial realce para a SIC, mais propensa à confusão dos números do que à clareza factual, é um modo de aumentar a nossa comum perplexidade.

De uma maneira geral, a ocultação do que se passa, nos domínios políticos e sociais, chega a ser ultrajante. Em Portugal pouco sabemos do que, na realidade, de passa. A futilidade tomou a dianteira sobre o essencial, e atinge, muitas vezes, a forma da abjecção com as perguntas feitas aos mandantes, sem se curar de saber as causas das coisas.

Gosto muito de jornalistas e, há anos, um preopinante, que passou a ensinador porque nunca soube fazer nada, a não ser praticar a intriga e a sonsice, disse que eu defendia a "corporação." É verdade. Sei muito bem por que passaram e passam aqueles que alguma vez tocaram no batente do jornalismo. Nos jornais fiz tudo o que havia fazer, com uma excepção: nunca escrevi de economia, por pura ignorância. Um dia, o meu amigo prof. Pereira de Moura, ante esta minha afirmação, esclareceu-me: "Não sabe você mas sabe-o a sua mulher, porque vai às compras." Sinto quase sempre um pingo de inveja quando vejo jovens repórteres como eu fui, devorados pelo afã da "cacha", de chegar primeiro, pensar rápido e escrever simples e nítido.

Tudo mudou de jaez e estilo. Mesmo assim, vale a pena entrar no ofício. Conheço e sou visitado por muitos moços e moças que gatinham, agora, na talagarça da reportagem. Como as Redacções (por favor, com R maiúsculo) foram inundadas por dirigentes que não sentem o fulgor da notícia e a grandeza do momento soberano, as coisas têm-se embrulhado. Não há jornalismo sem aproximação; a "distanciação" tem afastado os jornais das pessoas e dessa pressa entusiasmante de chegar primeiro do que os outros.

Tive a sorte de trabalhar em grandes Redacções, e aprendi que não há grandes jornalistas sem grandes Redacções. Nestas, todos os que lá trabalham são igualmente úteis e até preciosos. Tenho a convicção profunda de que o grande jornalismo português, que chegou a marcar a diferença, por uma questão de cultura e de História, possui, mesmo nesta hora dramática, os germes que reabilitam e renovam as tradições. Mesmo que alguns trotadores tentem obstar, por ignorância, ao seu desenvolvimento e instância social, e colá-lo a falaciosos modelos estrangeiros.

Temos de entender que Portugal é Europa, mas Portugal não é apenas Europa.

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