Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 14 de março de 2018 às 19:49

Tragédia e farsa

A tragédia do nacional-socialismo está a ser repetida, na forma de farsa, pelo nacional-populismo europeu e americano, com o apoio e o aplauso da Rússia.

A FRASE...

 

"Estando nós integrados profundamente na Europa, não poderemos escapar indefinidamente aos abalos sísmicos do edifício europeu - de que as eleições italianas foram um poderoso reflexo."

 

Vicente Jorge Silva, Público, 11 de Março de 2018

 

A ANÁLISE...

 

A progressão das correntes políticas do nacional-populismo pode ser comparada com o que foi a progressão das correntes políticas do nacional-socialismo. São movimentos que partem das periferias para o centro, que se organizam em função de questões de identidade e que estabelecem a sua orientação estratégica na rejeição da modernização em nome do regresso às configurações do passado. Na terceira e quarta décadas do século XX, as periferias foram Roménia, Hungria, Espanha, Portugal e Itália, até incorporar a Alemanha, o pretexto identitário foram os judeus e a questão estratégica central foi a crise dos impérios europeus que abriu a oportunidade para construir uma nova rede imperial a partir da Alemanha.

 

Na segunda década do século XXI, as periferias que alimentam o nacional-populismo são o Grupo de Visegrado (República Checa, Polónia, Hungria, Eslováquia), amplificando-se através de redes que se estendem à Holanda, a Itália, a França, à Alemanha, e que ganham poder agora com a incorporação da América de Donald Trump e o seu entendimento estratégico com a Rússia de Putin (ambos interessados em promover o nacional-populismo para desmantelar a União Europeia). O pretexto identitário é agora a reacção nacionalista contra as instituições da União Europeia e contra os acordos mundiais de comércio, e a vítima expiatória são os imigrantes, colocados no estatuto onde antes estiveram os judeus. Mas a questão estratégica central é a rejeição da globalização competitiva, a que se pretende contrapor o nacionalismo proteccionista para defesa dos sectores e empregos tradicionais.

 

A tragédia do nacional-socialismo está a ser repetida, na forma de farsa, pelo nacional-populismo europeu e americano, com o apoio e o aplauso da Rússia. Se a tragédia conduziu a uma guerra mundial, a farsa está a conduzir à decadência das economias desenvolvidas da Europa e dos Estados Unidos, abandonando os sectores de inovação para ficarem presas nos mercados, nos sectores e nos empregos que não têm futuro. Encerrados na mediocridade do poder interno, perdem o desafio e as oportunidades da globalização. Ícaro fez as asas e voou, mas o Sol derreteu a cera com que colou as penas e Ícaro caiu.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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