Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 28 de fevereiro de 2018 às 20:15

Transformação profunda

Reforço a ideia da importância de se proteger, no respeito pela ética e pela lei, os grupos económicos de origem e base portuguesas, evitando-se medidas que os levem a fazer deslocar as suas sedes ou parte da sua actividade para fora de Portugal.

Estamos a assistir, nas nossas vidas, a uma profunda transformação na sociedade portuguesa ao nível das grandes urbes, principalmente Lisboa e Porto. Em Lisboa, cidade onde vivo, muita coisa mudou. Para já não falar das obras de reabilitação nem das gruas espalhadas por toda a cidade num número impressionante, há este movimento imenso que se sente por todo o lado de chegada de estrangeiros. Não vivemos nesse tempo, mas quase parece a Lisboa da época dos descobrimentos, de todo o lado vêm para cá porque Lisboa está na moda, porque em Lisboa os negócios prosperam, porque em Lisboa e arredores se vive bem.

 

Cada vez são mais as nacionalidades de que se fala, com os respectivos cidadãos economicamente poderosos a investirem em Portugal, e concretamente nas suas principais cidades. Antes, eram principalmente franceses à procura, também, do estatuto de residente não habitual, chineses e cidadãos de outros países distantes, à procura dos Golden Visa, voltaram a ser os brasileiros, agora em número mais significativo e, atualmente, também belgas e turcos. Por exemplo, são capitais turcos que lideram a exploração dos contentores do porto de Lisboa e também do terminal de cruzeiros. Enquanto isto, atores das várias artes, no ativo ou aposentados, vêm para Lisboa ou fazem cá as suas festas e celebrações.

 

Mas o mais impressionante é mesmo, no setor imobiliário, a velocidade a que as casas voam. Aparecem num site de manhã (quando aparecem) e à tarde já há ofertas, com contratos-promessa poucos dias depois. E agora já não é só Lisboa, como tem sido noticiado, o ritmo intenso alarga-se aos concelhos circundantes. Trata-se, sem dúvida, de um tempo de profundas transformações que, pelos relatos que me chegam e pelo que vejo nas visitas que faço, está também a acontecer no Porto mas que se vai fazendo sentir noutras urbes, como, por exemplo, Évora. Por sua vez, os bancos, com excepção da Caixa, têm como acionistas principais cidadãos ou entidades de base estrangeira, a TAP tem em posição relevante um cidadão americano, a Altice, que é francesa, tomou conta do que ficou da PT, e o mesmo sucede com companhias de seguros, hospitais, sociedades industriais, propriedades agrícolas e outras. Portugal é hoje esta enorme plataforma giratória de abertura ao mundo e ao investimento estrangeiro. Estranho? Algo estranho. Há quem não se incomode nada, há quem se impressione. Por mim, depende dos setores.

 

Por isso mesmo, reforço a ideia da importância de se proteger, no respeito pela ética e pela lei, os grupos económicos de origem e base portuguesas, evitando-se medidas que os levem a fazer deslocar as suas sedes ou parte da sua actividade para fora de Portugal.

 

Ontem à noite jantando num excelente restaurante em Belém, Enoteca, participei numa interessante conversa sobre o lugar de Portugal na lista dos maiores produtores e dos maiores exportadores de vinho. Uma coisa pelo menos aprendi: Espanha é o país com maior área de cultivo de vinha do mundo, com cerca de um milhão de hectares. E, além disso, é o terceiro maior produtor. O país que mais tem progredido em níveis de produção é a China e o maior produtor é França, aparecendo Portugal em 10.º lugar. E a conversa surgiu porquê? Pela dificuldade que ainda existe de encontrar vinhos portugueses nos restaurantes de capitais europeias. Faço esta referência à área de cultivo em Espanha e ao lugar relevante de Portugal entre os produtores mundiais para sublinhar o apego que devemos ter à importância daquilo que, apesar de tudo, nos continua a identificar e a dar força à nossa economia.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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