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Luís Todo Bom - Gestor de Empresas 04 de Julho de 2011 às 11:16

Transformar bens não transaccionais em bens transccionáveis

Não há nenhum oráculo da economia que, nos últimos tempos, não refira que o grande problema da economia portuguesa reside no facto de termos uma repartição desproporcionada no nosso Produto Interno, entre a produção de bens transaccionáveis e não transaccionáveis, com um défice acentuado nos primeiros.

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Com base neste diagnóstico, que é simples de realizar e com o qual todos concordamos, surge a receita, também simples e óbvia: Temos de aumentar fortemente a produção de bens transaccionáveis!

Mas como?

Aqui, ou seja, nas propostas de soluções concretas é que começam a surgir os problemas e uma redução substancial do número de opinadores.

Só quem nunca geriu nenhuma organização empresarial e que detém um total desconhecimento sobre as características do nosso tecido produtivo é que pensa que este movimento é fácil e pode ser rápido.

Alias, continua a verificar-se ainda o movimento inverso, ou seja o encerramento de unidades de bens transaccionáveis, de que os estaleiros de construção e reparação naval são um exemplo recente preocupante.

A alteração do modelo de especialização produtiva de uma economia aberta, com uma grande predominância de unidades em áreas tecnológicas maduras e de pequena incorporação de conhecimento, é um processo longo, doloroso, cheio de dificuldades e exigindo, para além de grandes sacrifícios, uma enorme determinação na prossecução dos objectivos traçados.
Proponho-me, neste artigo, contribuir para esta reflexão, desenvolvendo uma tese que aponta um caminho possível de percorrer a curto-prazo e que permite ganhar tempo para o processo mais estruturado de alteração da nossa especialização industrial e de serviços.

O caminho que proponho passa pelo desenvolvimento de serviços que se comportem como bens transaccionáveis, em sectores tradicionalmente de bens não transaccionáveis, adicionando-lhe características que permitam a sua transacção em mercados internacionais.

Desenvolverei esta aproximação para os sectores da educação, da saúde e do imobiliário turístico, mas o mesmo mecanismo poderá ser adoptado em outros sectores de actividade, utilizando as ferramentas teóricas típicas do empreendedorismo com inovação, na sequência dos modelos de Hitt, Dana ou Shane.

No sector da saúde é possível especializar algumas unidades de saúde, clínicas e hospitais, em áreas do conhecimento que lhes permitam oferecer esses serviços, com sucesso, nos mercados internacionais.

São mercados importantes, para este tipo de diferenciação, os mercados africano e sul-americano, com o desenvolvimento de serviços na área da medicina tropical, onde o nosso país já deteve um conhecimento impar.

No sector da educação é possível e desejável desenvolver um conjunto alargado de programas académicos destinados a alunos do mercado internacional.

Os mercados africano e sul-americano são, novamente, mercados interessantes mas podemos ambicionar receber alunos, também de alguns países europeus, nomeadamente nas áreas das engenharias, gestão e medicina.

A conjugação da intervenção nestes dois sectores - educação e saúde - exige a abertura de novas faculdades de medicina, a leccionar cursos em inglês, com uma grande componente tecnológica, dando assim satisfação a pedidos já formulados por várias Universidades nacionais, como o Instituto Superior Técnico e a Universidade Católica.

No sector do imobiliário turístico é fundamental recuperar o fluxo de aquisições por parte de cidadãos estrangeiros, beneficiando, inclusive, nesta fase, dos receios de segurança que sentem em relação aos países do Norte de África, que se tornaram, nos últimos anos, nossos concorrentes directos. O reactivar deste fluxo de aquisições internacionais só será possível se o país isentar do pagamento de impostos as aquisições efectuadas por estrangeiros, à semelhança do que fazem os nossos competidores directos.

Em todo este processo de transformar bens não transaccionáveis em bens transaccionáveis, o Estado tem um papel fulcral.

Legislando, tendo este objectivo no horizonte, promovendo e facilitando a instalação de projectos inovadores nestes domínios e discriminando positivamente, em termos de dotações orçamentais todos os projectos que evoluam neste sentido.

Finalmente, as entidades financeiras constituirão o segundo e decisivo pilar para o sucesso deste programa, discriminando também positivamente todos os projectos que prossigam estes objectivos.

Os próximos tempos vão ser muito difíceis, com grandes limites ao crescimento.
Tudo o que pudermos fazer para minorar estas dificuldades vai valer a pena.



Prof. Associado Convidado do ISCTE
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