João Costa Pinto
João Costa Pinto 02 de abril de 2018 às 19:50

Trump e a China - (I)

Emergiu um consenso na China - partilhado pelos principais economistas e pela própria liderança política - sobre a necessidade de sustentar o crescimento com um maior contributo do consumo.

1. Há cerca de um ano publiquei alguns artigos em que abordei as contradições e os desafios enfrentados pelo "capitalismo chinês"(*). Dois acontecimentos - mandato perpétuo do Presidente chinês Xi Jinping e imposição por Trump de tarifas a importações com origem na China - levam-me a retomar este tema.

 

A compreensão da situação da sociedade e da economia chinesas passam por ter presentes as linhas que, nas últimas décadas, orientaram a acção dos dirigentes chineses depois de Deng Xiaoping: a nível interno, crescer e por esta via elevar de forma sustentada o nível médio de bem-estar de grupos sociais cada vez mais alargados; externamente, afirmar gradualmente a China como potência de primeira linha, projectando política e militarmente a sua crescente importância económica e financeira. Objectivos cruciais para uma elite política permanentemente preocupada com a preservação da estabilidade social e com a legitimação do controlo do poder por parte do Partido. Preocupações que, por sua vez, dependem fortemente de taxas de crescimento capazes de absorver os choques da actual fragmentação económica e social. O crescimento fenomenal da economia chinesa nas últimas décadas - suportado sobretudo por exportações e por programas de obras públicas - implicou uma absorção de matérias-primas, de energia, de capital e de tecnologia, em volumes e a um ritmo sem precedentes, com um impacto crescente sobre os mercados internacionais. No entanto, à medida que a economia chinesa se aproxima de níveis intermédios de desenvolvimento, este modelo tem vindo a "perder força" e a induzir uma desaceleração do crescimento. Como resultado, emergiu um consenso na China - partilhado pelos principais economistas e pela própria liderança política - sobre a necessidade de sustentar o crescimento com um maior contributo do consumo. Ajustamento técnica e politicamente complexo e difícil, devido à convergência de três tipos de factores: dificuldade em manter taxas de crescimento elevadas durante a transição entre os dois modelos; implicações sociais e políticas de um modelo que pressupõe um maior equilíbrio interno na distribuição de rendimento; por último, as dificuldades em manter sob controlo os níveis - já hoje elevados - de endividamento interno, num modelo em que o consumo passa a variável central.

 

2. É assim sobre um contexto de grande complexidade que se vai fazer sentir o impacto de dois acontecimentos recentes: a mudança constitucional que transforma Xi Jinping num dirigente perpétuo; a decisão de Trump de aplicar tarifas a importações com origem na China e de impor restrições a investimentos chineses em sectores com grande importância tecnológica. Acontecimentos que por um capricho da história coincidem no tempo e que reflectem a evolução política nas duas maiores economias mundiais, com um impacto imprevisível, tanto sobre a China, como sobre a situação internacional.

 

A decisão do Parlamento(**) chinês de aprovar o fim do limite de mandatos para o Presidente Xi Jinping tem uma dupla leitura: externamente, significa um golpe nas expectativas de quem admitia que com o crescimento e o desenvolvimento económicos viria uma progressiva liberalização e abertura políticas; internamente, é um retrocesso e um claro "aperto" do controlo político por parte da elite que hoje controla o Partido. Decisão que não pode deixar de reflectir o receio de perder o controlo do movimento de transformação da economia chinesa que referi anteriormente e que está a colocar desafios crescentes. É sobre esta situação que se vão fazer sentir os efeitos das decisões de Trump. (A continuar).

 

(*) "As contradições do capitalismo chinês" 

 

(**) "Assembleia Nacional Popular" (ANP)

 

Economista

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