Fernando  Sobral
Fernando Sobral 05 de março de 2018 às 20:14

Trump, Itália e a forma da água

O ataque de Trump ao comércio global, torna-o um John Wayne sem sentido do destino. Quando, na sua argumentação desértica, diz que as "guerras comerciais são boas" e que elas "são fáceis de ganhar".

Guillermo del Toro, o vencedor dos Óscares, diz que o seu filme "A Forma da Água" é um conto de fadas sobre os turbulentos tempos modernos. Talvez seja. Quando uma criatura anfíbia, metade homem e metade lagarto, e uma cientista descobrem que conseguem comunicar e acabam por se apaixonar, estão a ir contra a tendência conflituosa destes dias. A água pode assumir todas as formas. As pedras rolantes são incapazes de dialogar. Este singelo filme vai contra os muros e o ódio pelo diferente. Contra a tendência populista a que assistimos nas eleições italianas e a Idade das Trevas que Donald Trump vai impondo nos Estados Unidos. Se na Itália ingovernável os partidos mais votados defendem diferentes formas de populismo e de recusa de uma Europa unida, nos EUA, Trump refugia-se num forte de Álamo à espera dos inimigos.

 

O ataque de Trump ao comércio global, torna-o um John Wayne sem sentido do destino. Quando, na sua argumentação desértica, diz que as "guerras comerciais são boas" e que elas "são fáceis de ganhar", esquece-se de que o comércio é um mundo de equilíbrios. Não por acaso a China alertou contra esta dança da chuva e Juncker disse que um dia destes a UE vai impor tarifas às Harley-Davidson, às Levis e ao "bourbon". Daí a criarem-se tarifas para as pastilhas elásticas, para o bacalhau e para o rato Mickey será um passo. Trump acha que a economia americana é a da primeira metade do século XX. Não percebe que o problema crónico da sua economia é o declínio, não da manufactura, mas da capacidade tecnológica de ponta. A China já domina o sector de semicondutores e nas tecnologias digitais principais, em que investiu fortemente, enquanto os EUA fecharam grande parte dos seus laboratórios nos quais garantia a inovação. Trump parece querer que a economia dos EUA se centre na produção e exportação de produtos agrícolas e de materiais semiacabados. Pior: a guerra comercial que iniciou vira-se contra os seus principais aliados políticos no mundo. O regresso de Trump ao faroeste mostra que não sabe a fórmula da água.

 

Grande repórter

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