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Glória Rebelo 14 de Maio de 2007 às 13:59

Turismo em Portugal: desafios e estratégia

A realização da VII Cimeira Mundial de Turismo do World Travel & Tourism Council (WTTC) – organização que reúne a nível mundial empresários do turismo – nos dias 11 e 12 de Maio corrente, em Lisboa, constitui uma oportunidade para aqui tecer algumas consi

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Em Portugal, a aposta no turismo apresenta-se, inquestionavelmente, válida a diversos níveis. Não só porque é um dos sectores mais importantes da economia portuguesa, mas também pelo seu efeito multiplicador noutros sectores de actividade.

Apesar da concorrência internacional, e da emergência de novos destinos que têm afastado os turistas dos mercados tradicionais, Portugal tem conseguido manter uma razoável participação a nível mundial. Por exemplo, em 2004, de acordo com os dados então divulgados pelo ICEP, o país atraía 11,6 milhões de turistas. Nada que se compare, por exemplo, ao turismo em França (que em 2004 e 2005 atraiu cerca de 75 milhões de turistas), ou ao turismo em Espanha (que em 2006 alcançou um recorde de 58,5 milhões de visitantes), mas reflecte a dinâmica de um sector que se tem revelado fundamental para o crescimento económico e para a criação de emprego em Portugal. Convém, no entanto, enfatizar que, no nosso país, o potencial deste sector está longe de estar explorado.

Segundo dados da Organização Mundial de Turismo (OMT), o ano de 2006 foi um ano recorde para o turismo internacional, com 842 milhões de turistas, ou seja um aumento de 4,5% em relação a 2005 (contra os 4,1% previstos). De facto, e depois de uma diminuição sem precedentes de fluxos verificada em 2003 motivada pelo início da guerra no Iraque, em 2004 o turismo mundial conheceu um forte crescimento, tendência que actualmente se mantém: para 2007, a OMT prevê um aumento de 4% e, até 2020, um ritmo de subida na ordem dos 4,1%.

Ora é neste contexto que o turismo nacional – assim como o europeu – enfrenta desafios importantes. Realço aqui, pelo menos, três.

Um primeiro prende-se com a concorrência internacional. Além dos principais destinos turísticos, os denominados "países emergentes" asiáticos e africanos procuram também afirmar-se como fortes destinos turísticos mundiais. Por exemplo, de acordo com os dados da OMT, globalmente o turismo no continente africano aumentou 8%, ou seja, 6% nos países do Maghreb e 9% nos países da África subsaariana.

Quanto a este primeiro desafio, será determinante que, tirando proveito dos recursos naturais e dos recursos humanos, o turismo português mostre capacidade de representar a diferença. Através de uma promoção articulada de diversos factores-chave de atracção – como o clima ameno, a beleza da costa marítima, a paisagem do interior, a cultura e os monumentos históricos, as infra-estruturas para a prática de desportos e para a realização de grandes eventos – é preciso desenvolver uma política de marketing especificamente voltada para a valorização da cultura portuguesa.

Portugal encontra-se – progressivamente – a perder muita da sua identidade cultural. Ora este facto é negativo não só para o país e para os portugueses, como também para a economia, em particular para o turismo. É preciso não ignorar que – hoje e, tendencialmente, ainda mais no futuro – muitos turistas (em especial, os asiáticos e os americanos) procurarão destinos em função da oferta cultural especifica: património histórico, património museológico, espectáculos de música, dança e folclore nacional, ou gastronomia.

Um segundo desafio prende-se com a evolução demográfica. O actual envelhecimento da população portuguesa e europeia faz antever a emergência de novas formas de turismo e a consequente necessidade de adaptar infra-estruturas turísticas a pessoas seniores e/ou com grau de deficiência e mobilidade reduzida.

Por fim, um terceiro desafio liga-se à necessidade de diversificar o cliente-alvo. A maior parte dos turistas que visitam Portugal são oriundos da Europa Ocidental, particularmente dos países da União Europeia e dos EUA. Esta situação pode constatar-se através da repartição das dormidas de estrangeiros em 2005, pelos principais países de origem: Reino Unido (30,7%), Alemanha (16,5%), Espanha (11,5%), Países Baixos (6,8%), França (4,7%), Irlanda (3,6%), Itália (3,1%) e EUA (2,6%). Contudo, é preciso também saber atrair a clientela asiática. E se, por exemplo, o Japão é já uma importante fonte mundial de turistas, estima-se que a China seja, em 2020, a principal fonte mundial de turistas. Ora, para responder a este desafio, é preciso conhecer o tipo de turismo que estes procuram. Se este estiver associado à oferta histórico-cultural existente num país-destino, será conveniente reforçar este tipo de oferta, nomeadamente, expandindo-a e diversificando-a. Aqui, e como já sugeri em artigo aqui publicado, a construção de um parque temático consagrado aos Descobrimentos Quinhentistas, época emblemática para a história portuguesa e universal, que paralelamente desenvolva animação cultural, podia constituir uma iniciativa bem sucedida. Recorde-se que em 1998 – aquando da Exposição de Lisboa – o universalmente conhecido Vasco da Gama passou a integrar o "Hall of Fame" da The American Society of Travel Agents (ASTA).

Acresce que, perante estes desafios, será fundamental que se dinamize a promoção turística. Essencial para qualquer país, a diplomacia económica – combinação virtuosa entre diplomacia e economia – deve ter como missão utilizar a influência diplomática e os recursos existentes num país, no sentido de explorar oportunidades para a economia nacional. Neste particular, caberá certamente ao recém criado Instituto do Turismo de Portugal – designadamente através da promoção da imagem de Portugal enquanto destino turístico, da qualificação dos recursos turísticos, e do financiamento da melhoria da oferta turística – protagonizar a viragem necessária a uma nova estratégia de desenvolvimento do turismo português.

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