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José Cutileiro 17 de Abril de 2013 às 00:01

Um eixo Londres-Berlim?

A grande força dos europeus não é o euro, nem a "identidade europeia", nem a paz entre os seus membros. É o mercado único, fundado e mantido sem visões irrealistas da natureza humana (e sem ilusões sobre amor desinteressado dos europeus uns pelos outros, uma vez livres do papão soviético).

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Entre a morte e o enterro de Margaret Thatcher, David Cameron, a mulher e os filhos visitaram Angela Merkel e o marido no castelo de Meseberg, perto de Berlim, que serve de residência secundária ao Chanceler da República Federal. Tudo, do convívio descontraído aos presentes trocados, passando por conversa de Angie e Dave sobre a necessidade de reformar a Europa, parece ter corrido no melhor entendimento possível.

 

Embora Cameron haja retirado o seu partido do grupo das democracias cristãs do Parlamento Europeu, ele e Merkel têm afinidades ideológicas e visões parecidas do que haja a fazer para tornar a União mais competitiva. Além disso, a Senhora percebe que precisa de ter ao seu lado um dos outros grandes poderes europeus. A Itália, há muito tempo, e a França, há pouco, não são de fiar mas a pátria de Churchill, apesar das dúvidas existenciais de muitos ilhéus quanto ao projecto europeu, é parceiro de peso (e dá jeito agora quando, no Sul da Europa, a Chanceler é caricaturada com bigode à Hitler). E a Cameron, na táctica arriscada por que optou para convencer os seus compatriotas a não se separarem da Europa, convém ser visto como detentor da amizade e do respeito do manda-chuva da União.

Mais importante é que, além do proveito que cada um dos dois tire do encontro e do que a este se siga, poderá bem haver ganhos para todos nós. Cameron, que tem moeda própria, e Merkel, que partilha moeda comum talhada à medida das necessidades e preferências da Alemanha, não falaram do euro. Falaram do que ambos consideram ser o motor da União, a fonte da influência que ela tem no mundo, a ferramenta do seu poder actual e de eventual maior poder futuro: o mercado único (com grandes áreas ainda mal exploradas: energia; serviços; digital).

 

Chanceler e primeiro-ministro acham ser urgente reformar a Europa para a tornar mais flexível e competitiva e decidiram trabalhar juntos a fim de que se avance já nos Conselhos Europeus de Maio e Junho, sobretudo no que diga respeito a comércio entre a União Europeia e o resto do mundo. Não se podiam ter metido por melhor caminho. A grande força dos europeus não é o euro, nem a "identidade europeia", nem a paz entre os seus membros. É o mercado único, fundado e mantido sem visões irrealistas da natureza humana (e sem ilusões sobre amor desinteressado dos europeus uns pelos outros, uma vez livres do papão soviético).

O convite, sagaz, veio de Merkel. Perder o Reino Unido seria golpe fundo para a Europa, enfraquecendo-nos economia e defesa (haveria consequências más no Reino Unido, mas essas seriam problema britânico). Além disso, hegemonia alemã sem contra-poderes tornar-se-ia sufocante e o fim ruinoso do projecto europeu inevitável. Se o referendo prometido por Cameron chegar a ter lugar, a Alemanha fará tudo o que puder para levar os britânicos a votarem de maneira a ficarem na União.

Entretanto, ouviremos falar menos do Eixo Franco-Alemão que foi forte enquanto a Alemanha era fraca.

* Embaixador

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