João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 06 de março de 2018 às 20:58

Um pano encharcado no focinho

Assim que mar e vento se revelarem propícios, pelo final de Março, vão engrossar as vagas de foragidos a arriscar a travessia da Líbia para a península italiana e ainda por essa altura se discutirá em Roma a formação de governo.

Será tempo, também, para profusas especulações sobre acordos entre Angela Merkel e Emmanuel Macron sobre a criação de um Fundo Monetário Europeu, da instituição de Fundo Europeu de Depósitos ante a renitência na Holanda, Lituânia ou Suécia quanto a compromissos que federalizem poder decisório à custa de soberanias nacionais.

 

Na Primavera, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados continuará a contabilizar chegadas, mortes e desaparecimentos na costa italiana, tal como ocorreu com 119.396 salvos e 2.873 irremediavelmente naufragados rumo a Lampedusa e outros portos em 2017.

 

Quanto ao destino dos mais de 600 mil nigerianos, bengalis, eritreus, guineenses, entre outros africanos e asiáticos chegados a Itália nos últimos cinco anos, por essa altura, pouco se poderá adiantar, tanto mais a taxa de desemprego transalpina é de 11%, subindo aos 33% entre menores de 25 anos e rondando 17% até aos 35 anos.

 

A morte no Mediterrâneo pairará e inquinará as divergências na UE quanto a políticas para acolhimento a refugiados, ou seja, pessoas com "medo fundamento de perseguição", distinta da definição de quotas para emigrantes por interesse nacional, e inseparável da cooperação económica e política com Magrebe, África a sul do Saara e Médio Oriente.

 

Quando o sol brilhar, a dívida pública de Roma superará os 130% do PIB e no Mezzogiorno pouco terá mudado para que a revolta pela degradação persistente, conivências e prejuízos de economia subterrânea e demais estratagemas rivais da má finança de Milão ou Turim, roube o voto ponderoso no Movimento 5 Estrelas.

 

O Norte de Itália, ganho para a extrema-direita, dará provas do ressentimento latente e do fracasso da coesão nacional num país em que o PIB, tal como na Grécia, Finlândia e Portugal entre os 35 Estados da OCDE, ainda não conseguiu recuperar para o nível anterior à crise de 2008.

 

Chegou o momento na Roma do pós-guerra, após 41 chefes de governo e 65 executivos, em que os blocos partidários e regionais estiolam e se cindem, abrindo caminho para forças radicais onde a extrema-direita e a veia anarquista predominam.  

 

As eleições italianas demonstram que veleidades de coesão financeira da Zona Euro por via de alienação de soberanias nacionais não têm qualquer viabilidade política por maiores que sejam os riscos de contágio de crises de banca e de dívida de Estado.

 

Na Alemanha, o brilho de uma taxa de crescimento de 2,2% em 2017 é ofuscado pelos 161 dias que passaram para que Angela Merkel conseguisse formar o seu quarto governo.

 

A coligação entre tendências rivais democratas-cristãos e sociais-cristãos bávaros numa aliança potencialmente fatal para um partido social-democrata em queda livre abre caminho à contestação de extrema-direita da Alternativa para a Alemanha.

 

Destes transes em Itália e na Alemanha ressalta o efeito corrosivo de conflitos gerados por perda de estatuto, diminuição de capacidade competitiva no mercado de trabalho, estagnação ou redução de rendimentos, assimetrias regionais, percepção de concorrência desleal por emigrantes, erosão de valores e solidariedades nacionais ou de classe.

 

Quem sofre, perde, inveja, teme, é despeitado, envereda pela revolta e não hesita, nunca receia em arrojar a quem manda o mais sentido desprezo por melhor que tenha sido até agora o seu estatuto de cidadão de Estado soberano da UE.

 

Tarda a Primavera e já se vislumbra algo de muito mau.

 

Jornalista

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