João Quadros
João Quadros 10 de outubro de 2014 às 10:11

Um plano demasiado inclinado

Depois do famoso pedido de desculpas - seguido de várias promessas -, o ministro da Educação veio agora dizer que não prometeu aos professores a manutenção do lugar.

 

Depois do famoso pedido de desculpas - seguido de várias promessas -, o ministro da Educação veio agora dizer que não prometeu aos professores a manutenção do lugar. "Disse 'mantêm-se'. Não disse 'manter-se-ão'". O Governo entrou na fase "não leram as letras pequeninas" - é muito comum acontecer quando fazemos negócio com gente sem escrúpulos. Perante as justificações do exigente Crato, penso que é possível os alunos usarem os mesmos estratagemas semânticos quando responderem nos exames: "Eu disse que Fernando Pessoa tinha, pelo menos, um heterónimo".


Depois de ter errado na fórmula matemática de colocação dos professores, Crato começa, também, a tropeçar no português. Na sua aparição na televisão, Crato disse que vinha "esclarificar" a situação... Esclarificar é uma mistura de esclarecer com clarificar, que dá uma substância esponjosa, e pouco consistente, como se viu pelas justificações do ministro. Posso garantir que não fiquei nada esclarificado. Aliás, fiquei envergurioso: que fica ali entre o envergonhado e o furioso. As desculpas do ministro dão vergonha alheia e enfurecem porque são feitas como se aquelas pessoas e famílias (que tinham começado uma vida nova, há três semanas, e agora viram todos os seus planos destruídos) fossem mesas de escola ou estojos de química. "Vão lá buscar a família Saraiva a Beja, que afinal eles eram para ir para o depósito em Cinfães."


O ministro foi à Assembleia da República pedir desculpa ao País e dar a sua palavra que os professores não teriam qualquer espécie de prejuízo. Agora diz "os prejudicados serão indemnizados". Se ninguém é prejudicado, como é que há prejudicados que serão indemnizados? Mais depressa se apanha um mentiroso que um semântico.


As aulas já vão a meio do primeiro período e continua a não haver professores. O matemático Crato diz que são só 180 professores que são afectados, mas esquece-se de fazer as contas: como as turmas têm pelo menos 30 alunos, estamos a falar de mais de cinco mil crianças. Diz o estouvado: "Vão 800 professores a caminho das escolas... espera, afinal, não. É só uma manif de professores que vai para a 5 de Outubro". Agora, Crato promete ver a situação dos professores "prejudicados" no futuro. Está a pensar colocar vinte professores de Matemática em Marte, lá para 2085.


Quem devia pedir a demissão de Crato eram os mesmos que dentro do Governo quiseram a demissão de Relvas. Na verdade, mais vale tirar o curso como tirou o Relvas do que apanhar um professor desonesto como o Crato. Nada como acabar com mitos de honestidade e competência. Não estou a falar do Zeinal, mas do Crato. Faltava pôr o Medina nas finanças (outra vez).


Para terminar a fantochada, Passos goza com a vida das pessoas e diz que Crato vai voltar à universidade, mas não já. Provavelmente, para uma privada, que é para eles que ele tem trabalhado. Passos brinca com o assunto e ri-se, juntamente com o valente Crato.


A galhofa do ministro deriva do facto de ele não ter os filhos a estudar em Portugal. O PM brinca porque, como é sabido, a maioria dos jotinhas raramente ia às aulas.

 

 

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TOP 5

 

"Esclarificamentos" da semana

 

1 Seguro vai dar aulas de Ciência Política - se tiverem uma cadeira de autópsia a políticos, dá imenso jeito.


2 Carlos Costa compara banqueiro que oculta a informação a doente que não informa o médico que está com ébola - eu comparo o Carlos Costa a um indivíduo que vai para um cargo de supervisão e não revela que sofre de cataratas.


3 Médicos passam a ter de declarar ofertas de laboratórios acima dos 60 euros - vão ter de viajar com mais escalas: oferecem viagens até Badajoz. Depois, Badajoz-Sevilha. Sevilha-Maiorca, sucessivamente, até chegar à República Dominicana.


4 Ministro Macedo diz que Portugal está bem preparado para lidar com o ébola - o vírus não vai subir as escadas da Assembleia da República.


5 Seguro recusa ir para a sexta fila da bancada - Seguro não abandona a Assembleia por razões políticas, mas por razões pessoais: falta de vista. A partir da terceira fila, não vê nada.

 

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