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Franquelim Alves 22 de Dezembro de 2006 às 13:59

Um ano de boas notícias

Apesar do pessimismo dominante na opinião publicada, de um início de 2006 ainda marcado pelo impacto do furacão Katrina e do aumento significativo do preço do petróleo, 2006 confirmou-se como mais um período muito positivo de desenvolvimento económico, a

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Os efeitos benéficos da globalização continuaram a fazer-se sentir e as oportunidades de crescimento e de criação de riqueza daí resultantes têm vindo a surgir em todas as partes do Mundo, incluindo o sempre desprezado e abandonado continente africano.

Mais uma vez as pitonisas da desgraça falharam nos seus prognósticos.

Contudo não deixaram de influenciar negativamente o sentimento psicológico das sociedades ocidentais contribuindo para agravar um estado neurótico-depressivo sem sentido. Sem sentido porque, como os factos provam, estamos a viver um dos períodos mais brilhantes da sociedade moderna.

Aponto, de seguida algumas razões, que, a meu ver, sustentam esta visão optimista.

A performance da economia mundial

A economia mundial completa, em 2006,  quatro anos consecutivos de crescimento a uma taxa média anual de 4,8%, série nunca observada desde o início da década 70 do século passado e muito acima da média de crescimento anual de 3,7% dos últimos 45 anos.

Ao mesmo tempo,  comércio externo mundial atingiu 30% do PIB mundial, o triplo do nível atingido no boom económico dos anos 60.

O que interessa realçar também é que, mesmo a África, que se tem caracterizado por um queda consistente do seu Produto nas últimas décadas, começa, finalmente, a apresentar sinais de inversão dessa tendência, resultado de uma muito maior abertura da sua economia e da adesão ao sistema de mercado. O caso de Angola é um exemplo paradigmático do que está acontecer.

O que é ainda mais interessante é que as perspectivas de evolução para 2007 e 2008 continuam a ser francamente positivas, apesar de uma ligeira desaceleração, em 2007,  da economia americana e, em menor escala, da economia europeia.

O dinamismo dos mercados de capitais

Os mercados de capitais manifestaram um dinamismo assinalável.

Os mercados de acções somaram importantes valorizações, mesmo depois das performances positivas de 2004 e 2005. O S&P500 valorizou, até 20 de Dezembro, 14,2% e os mercados europeus valorizaram até à mesma data entre 32,2% (Espanha) e 10,18% (Reino Unido). A maior parte das praças da Europa continental registaram valorizações acima de 20%: o PSI20, 32,4%, o CAC40, 17%, o Dax, 21,8% . Também na Ásia,  o Hang Seng valorizou 29,3%.

Estas valorizações reflectem a confiança dos investidores na saúde das economias e o fenómeno de racionalização operacional e financeira que se tem vindo a observar na maior parte das economias.

Acresce a enorme liquidez disponível, resultante dos excedentes originados nos países produtores de commodities e o fenómeno generalizado de abertura das economias ao sistema de mercado e todo o inerente processo de privatizações e reestruturações.

Finalmente deve referir-se a crescente diversificação e sofisticação dos mercados financeiros.

O desenvolvimento exponencial de novas formas de financiamento e investimento através de fundos de "private equity" e da indústria de "hedge funds"  gerou maior profundidade dos mercados, permitiu uma grande dispersao do risco financeiro e deu origem novas formas de financiamento, anteriormente não disponíveis.

O processo de monetização de quase todo o tipo de activos, tem permitido que uma das principais invenções da civilização humana – a moeda – tenha penetrado em toda as esferas da actividade económica e facilitado a realização de negócios e projectos que até agora não conseguiam ver a luz do dia.

A resiliência da economia mundial ao aumento de preços das commodities

Há uns anos atrás, os aumentos verificados no preço do petróleo e de outras mercadorias teria provocado efeitos muito negativos na economia mundial. Pelo contrario assistiu-se a uma grande capacidade das economias para absorver, sem sobressalto, recorrentes subidas de preços.

Tal resulta de dois factores: as economias mais desenvolvidas tornaram-se economias de serviços em que a cadeia de valor assenta fundamentalmente no capital humano e no know how e o grau de eficiência na utilização dos recurso aumentou consideravelmente. Por exemplo,  a economia americana cresceu mais de 150% desde os anos 70, mas o consumo de petróleo cresceu apenas 25%!.

A crescente diversificação das fontes de energia

O aumento do preço do petróleo tem vindo a permitir a aposta crescente em fontes alternativas de energia. Se é verdade que as energias renováveis são uma ínfima parte do mix de produção de energia, o nível actual de preços tem permitido a crescente aposta em novas soluções tecnológicas. Para alem do retorno ao nuclear – cada vez mais uma inevitabilidade – a reutilização do carvão pelo recurso a tecnologias limpas e a aposta no hidrogénio vão ser tendências cada vez mais importantes do paradigma energético.

A solução não passará pelo intervencionismo estatal através de medidas administrativas – como a os eurocratas privilegiam – mas sim pela combinação criativa da liberdade dos mercados com projectos de I&D envolvendo Estado e empresas. Nos EUA, só o departamento de Energia  investiu 1,8 mil milhões de dólares em investigação em 2006 e este número aumentará 25% em 2007!.

A redução do peso do Estado

Mesmo nos  países mais renitentes, a França, por exemplo, é crescente a aceitação de que o modelo futuro da sociedade  implica o aumento da liberdade individual e das opções de escolha de cada cidadão. O modelo social europeu não é viável e, com maior ou menor abertura, todos os governos reconhecem que são indispensáveis reformas conducentes à redução do peso do Estado e da despesa pública na economia.

Chame-se flexisegurança, flexibilização dos mercados ou qualquer outra coisa essa é a marcha imparável que libertará mais riqueza para os cidadãos e reduzirá os privilégios dos protegidos  pelo sistema em favor da igualdade de oportunidades para todos.

E Portugal?

Portugal desperdiçou os anos de afluência financeira e não se preparou para o embate da abertura da economia mundial. Sofre agora as consequências do aumento desmesurado do peso do Estado na economia, com a inerente perda de competitividade.

O ajuste agora será mais doloroso como já se sente, mas esse é o único caminho para reconquistarmos a capacidade de concorrência em economia aberta.

As reformas anunciadas são um pequeno começo que requerem persistência e a coragem para um muito maior aprofundamento.

O que pode correr mal

Como noutras épocas de enorme desenvolvimento existem sempre ameaças que devem ser combatidas à nascença. 

A grande globalização do século XIX acabou por desembocar na I Guerra Mundial, em virtude da reacção proteccionista das grandes potencias de então. As suas consequências marcaram todo o século XX, com a destruição maciça de vidas humanas e de riqueza em resultado da II Guerra Mundial, com o agrilhoamento e morte de milhões de homens e mulheres em consequência da Guerra Fria e com o retorno ao proteccionismo que só nos anos oitenta começou a ser desmantelado.

Os próximos anos viverão sobre a ameaça, sempre presente, do retorno ao proteccionismo consequente luta pelo domínio dos mercados e pela instabilidade causada pelo terrorismo internacional e pelo extremismo islâmico.  Estas são as duas grandes ameaças que continuaremos a defrontar.

Acredito que, tal como no passado, os princípios da liberdade económica e política prevalecerão.

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