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João Carlos Barradas - Jornalista 21 de Outubro de 2009 às 11:11

Um confronto exemplar

Pouco mais de quatro meses após abrir o seu primeiro hipermercado em Moscovo o Carrefour, a maior cadeia retalhista europeia, acaba de anunciar a sua saída do mercado russo num caso exemplar de investimento precipitado e dissensões entre accionistas e a administração.

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Pouco mais de quatro meses após abrir o seu primeiro hipermercado em Moscovo o Carrefour, a maior cadeia retalhista europeia, acaba de anunciar a sua saída do mercado russo num caso exemplar de investimento precipitado e dissensões entre accionistas e a administração.

O anúncio da retirada da Rússia surgiu com a divulgação dos resultados do terceiro trimestre deste ano, negativos tal como os dois exercícios anteriores, que se saldaram numa quebra do volume de negócios de 2,9% para 24,02 mil milhões de euros, em relação a período homólogo de 2008.

Em França, o principal mercado do Carrefour responsável por mais de 40% do volume de negócios, a quebra foi de 3,4%, enquanto as vendas diminuíram 6,5% nos demais países da Europa Ocidental e 4,6% no leste europeu.

As lojas da empresa só registaram resultados positivos na América Latina e na Ásia, graças ao bom desempenho das operações no Brasil e na China, e, consequentemente, o volume global de vendas cifrou-se desde o início de 2009 em 70,2 mil milhões de euros, uma redução de 0,7%.


Accionistas frustrados
A multinacional francesa foi duramente atingida pela recessão e dois accionistas - os norte-americanos da Colony Capital, especializada em investimentos imobiliárias, e Bernard Arnault, presidente do grupo de venda de artigos de luxo LVMH - que detêm desde 2007 13,5% do capital e cerca de 20 % dos direitos de voto através da Blue Capital defendem a venda dos activos na Ásia e na América Latina.

O Carrefour perdeu cerca de 30 por cento do seu valor em bolsa desde Março de 2007 e a alienação das operações latino-americanas e asiáticas, em que poderão estar interessados a maior multinacional do sector, a norte-americana Wal-Mart, e fundos de investimento chineses, poderá permitir ressarcir os accionistas da Blue Capital, que viram até agora frustrados os seus planos para rentabilizar os activos imobiliários da companhia francesa, devido à quebra do mercado imobiliário.

O director-geral em funções desde Janeiro, Lars Olofsson, antigo vice-presidente da Nestlé, opõe-se à venda em bloco das lojas nos mercados fora da Europa, insistindo na necessidade de reforçar as operações no Brasil, onde a empresa está presente desde 1975, e na China, com investimentos iniciados em 1995, que em conjunto representam já 14 % das vendas globais, além de pretender encontrar parceiros para a entrada na Índia.

O confronto entre os interesses de curto prazo dos dois principais accionistas privados, com efectivo poder para forçar uma decisão, já que mais de 80 por cento das acções estão dispersas em bolsa, e a estratégia da administração, que mantendo uma guerra de preços com os seus competidores em França, caso dos grupo Auchan e Casino, visa aumentar a presença em mercados emergentes está a destabilizar a empresa.


A retirada da Rússia
A saída do mercado russo depois da inauguração em Junho de hipermercados em Moscovo e Krasnodar, no Sul do país, estando aprazada para Novembro a abertura de outro hipermercado em Lipetsk (centro da Rússia), foi justificada pela "impossibilidade de crescimento orgânico".
O Carrefour começara por não salvaguardar as necessárias parcerias locais ou garantir aquisições de empresas russas, como fizeram firmas internacionais que operam em sectores económicos não-estratégicos da economia russa como a Danone ou a Nestlé, o que desde logo colocava a multinacional francesa em desvantagem num mercado particularmente agreste.

Em Setembro a imprensa especializada russa tornava público que o Carrefour desistira das negociações para adquirir a companhia russa Sétimo Continente e num sector competitivo onde, por exemplo, os seus rivais da Auchan entraram em 2002, dispondo actualmente de 34 hipermercados e 27 supermercados, as perspectivas de crescimento eram limitadas.
A 15 deste mês a multinacional francesa dava por encerrada a investida na Rússia procurando agora compradores para as suas três lojas.

As dissensões entre accionistas e administração arriscam agravar-se e o pretexto imediato para abrir hostilidades surgirá no final do ano se não for alcançado o objectivo de fechar 2099 com resultados operacionais de pelo menos 2,7 mil milhões de euros, uma perda de 18% em relação a 2008.


Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
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