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Negócios negocios@negocios.pt 26 de Maio de 2003 às 10:35

Um homem honrado

Silva Lopes é uma referência porque é íntegro. Isso é muito reconfortante, numa época em que empobrecemos com a crise económica, sofremos com a crise social e andamos atordoados com a crise política.

Sérgio Figueiredo

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Este país está habituado a invejar os vivos e homenagear os mortos. É um país normalmente ocupado com polémicas pessoais, mas quase sempre ignorando os caminhos que toma. Um país assim é um país que fala mas não ouve. E, sem ouvir, não aprende, nem progride.

José da Silva Lopes não é um daqueles tribunos muito seguros da sua profunda sabedoria. Nem está entre os que, convictos da sua justeza moral, são prolíficos no seu juízo. Não inveja ninguém. Por isso não é invejado. Talvez por isso, o país não esperou para lhe render a justa homenagem.

Silva Lopes é uma figura ímpar da nossa sociedade. Das raras personalidades que reúne unanimidade à sua volta. Não por ser daqueles que não correm riscos e a todo o custo evitam comprometer-se. Mas por os seus compromissos estarem firmados em deliberações de vida e alicerçados na fé.

A vida de um persistente, com uma longa e permanente dedicação às causas nacionais. A fé do pessimista, de quem carrega sempre no “pior de Portugal” mas alimenta a esperança de que Portugal se faça melhor.

Silva Lopes é uma referência, porque é um homem íntegro. Numa época em que empobrecemos com a crise económica, sofremos com a crise social e estamos atordoados com a degradação da vida política, é muito reconfortante saber que existem pessoas assim.

Mesmo quando ele alerta para o risco que vivemos nesta sucessão de actos desorientados. Mesmo quando parece resignado a este “modo de vida” frágil. Ou mesmo quando o ouvimos dizer “não sei como vamos sair desta situação”.

Silva Lopes, sem se aperceber, dá-nos a esperança e o exemplo. O exemplo de quem consegue discernir no meio de tanta retórica sobre assuntos de nada. A esperança de que é possível alterar comportamentos. E de que os exercícios da vaidade humana nem são um modo de vida, nem são fatais como o destino.

Deve-se ouvir, perante o grau de complexidade dos nossos problemas, quem tem a humildade de reconhecer que não tem respostas. Mas é capaz de ponderar, estudar afincadamente e discriminar entre alternativas.

Só assim, um homem com o coração à esquerda, consegue pedir contenção salarial; porque está a pensar nos futuros desempregados. Só assim, um homem que participou activamente nas nacionalizações pós-revolucionárias, consegue hoje revelar-se perplexo com a morte da concorrência, arrastada pela recente vaga pró-monopólios, feita em nome dos campeões nacionais. Em qualquer um de nós, isto seria incoerência. No caso de Silva Lopes é integridade. A mesma que o leva a insinuar para que Cavaco Silva e Vítor Constâncio avancem para as próximas presidenciais.

Ele sabe, todos temos a noção, de que o país não sabe para onde vai. O que ele quer dizer, e todos reconhecem, é que faltam lideranças. O actual governador do Banco de Portugal mostrou naquela conferência que sabe, como poucos, enquadrar a natureza dos nossos problemas. O ex-primeiro-ministro foi clarividente na exposição das maleitas políticas. Silva Lopes nem imagina como se entende o alcance do seu apelo.

Por Sérgio Figueiredo, Director do Jornal de Negócios

Artigo publicado no Jornal de Negócios

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