Simon Johnson
Simon Johnson 17 de maio de 2018 às 14:00

Uma disrupção para os autocratas

Agora chegou uma nova tecnologia digital: as criptomoedas. Embora exista muita discussão sobre como esta abordagem para estabelecer e transferir valor pode afectar os sistemas bancários, o seu impacto potencial na política em todo o mundo tem sido largamente ignorado.

Acreditava-se que o desenvolvimento da internet iniciaria uma nova era da democracia. A informação tornar-se-ia livre, em todos os sentidos, e isso representaria uma ameaça existencial a regimes assentes no controlo do conhecimento, incluindo aqueles que tentaram anteriormente isolar-se do mundo exterior.

 

Hoje, essa visão já não parece correcta. Governantes autoritários descobriram não apenas como distorcer e controlar o fluxo de informação dentro das suas próprias sociedades, mas também como confundir pessoas noutros países e talvez até mesmo atrapalhar democracias que antes funcionavam bem. O advento mais recente das redes sociais pode ter perturbado um pouco os autoritários - lembra-se da Primavera Árabe? - mas não há dúvida de que agora recuperaram o passo.

 

Em quase todas as partes do mundo, os autocratas estão a ficar mais seguros no poder, muitas vezes por detrás de uma fachada de democracia e eleições. Os opositores são eliminados. A imprensa é amordaçada. E o fluxo de informações é estritamente controlado, através de ferramentas que vão desde meios de comunicação tradicionais patrocinados pelo regime até softwares mais modernos ou "bots" automatizados. Segundo o mais recente índice de democracia da Economist, metade dos países do mundo eram menos democráticos em 2017 do que em 2016, e apenas 5% da população mundial vive numa "democracia plena".

 

Agora chegou uma nova tecnologia digital: as criptomoedas. Embora exista muita discussão sobre como esta abordagem para estabelecer e transferir valor pode afectar os sistemas bancários, o seu impacto potencial na política em todo o mundo tem sido largamente ignorado.

 

As criptomoedas - como a bitcoin, a ethereum e os seus muitos concorrentes - estão obviamente relacionadas à tecnologia da internet, mas há uma diferença simples e profunda. A internet tem a ver com o acesso a informações nas suas diversas formas, sem necessidade de convergir numa única visão. De facto, a internet dá acesso a diversas opiniões, ao ponto de estarmos por nossa conta no que respeita a descobrir o que é informação precisa e quem está a distorcer a verdade ao serviço de uma ditadura malévola.

 

Pelo contrário, as criptomoedas só funcionam se todos (dentro desse sistema de criptografia) concordarem com quem detinha uma unidade de valor ontem e para quem ela foi transferida hoje. Podemos tentar distorcer essas informações, piratear os computadores de outras pessoas ou interromper o algoritmo que regista transacções - e esses ataques estão sempre a acontecer. No entanto, dada a competição entre criptomoedas em relação à sua segurança e utilidade, parece razoável supor que os mais fortes sobreviverão.

 

O valor de uma criptomoeda consiste num registo digital gerido de forma descentralizada. O registo existe em muitos nós dentro da rede, tornando-o resistente a um controlo central ou "censura" - um termo usado frequentemente por fundadores, traders e observadores de criptomoedas, precisamente porque muitos deles estão preocupados com a alteração selectiva de registos. 

Não é difícil entender porque é que um regime autoritário iria querer impedir que o seu povo tivesse acesso a registos digitais potencialmente não rastreáveis e seguros.

 

Para começar, com acesso a esses registos, um cidadão poderia fazer pagamentos ou doações fora do sistema bancário e da sua vigilância. Regras que restringem a organização política tornar-se-iam mais fáceis de desafiar.

 

Além disso, os mesmos tipos de registos podiam ser usados para armazenar e transmitir outras informações. Por exemplo, alguns dos meus colegas estão a desenvolver um sistema que permite aos utilizadores armazenar e gerir os seus próprios registos de saúde. Porque não criar um sistema semelhante estruturado em torno de reivindicações ou protestos contra o regime?

 

E não há, potencialmente, nenhum limite para o quão engenhosas as pessoas se podem tornar em relação à escrita dos chamados contratos inteligentes, que accionam pagamentos ou outras transacções digitais (como o envio de mensagens de protesto) quando ocorrem determinados eventos. Para activistas em todo o mundo, a única restrição é a sua criatividade.

 

É claro que os regimes autoritários já estão a começar a ver os perigos - e devemos esperar que proíbam a detenção de criptomoedas de várias formas draconianas. E sem dúvida que desenvolverão novas ferramentas para tentar controlar o que os seus cidadãos fazem a esse respeito. Esta será uma interessante corrida ao armamento da inovação - e que será difícil para os regimes autoritários vencerem, uma vez que a tecnologia subjacente, conhecida como blockchain, foi desenhada para contornar ou evitar a necessidade de um poder centralizado.

 

Democracias bem organizadas têm pouco a temer em relação às criptomoedas. Pode haver alguns golpes - e os investidores devem sempre ter cuidado com produtos novos que não são completamente transparentes. Mas vamos obter novas formas de pressão competitiva sobre os meios de pagamento existentes. Qualquer coisa que reduza as taxas dos cartões de crédito e amplie a inclusão financeira deve ser bem-vinda.

 

Pelo contrário, pessoas cujo poder político está assente no controlo de informações têm motivos para estar preocupadas. Haverá sempre regimes autoritários de alguma forma e em muitos lugares. Mas não seria uma surpresa se o pêndulo começasse agora a retroceder a favor daqueles que privilegiam sistemas mais abertos e um maior grau de concorrência política.

 

Simon Johnson é professor da Sloan School of Management do MIT e o co-autor de White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria