Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 20 de agosto de 2019 às 20:12

Uma lição da “crise energética” para a direita

A direita andou recolhida durante a “crise energética” mas, se tiver estado atenta ao que se passou durante esses dias, talvez esse recato tenha sido minimamente virtuoso. É que há uma lição a retirar da “crise” sobre o que é e o que quer o PS.

É uma lição fundamental para quem quer construir uma alternativa política de direita que não seja apenas para uso proclamatório, sinalização de virtude, descargo de consciência ideológico ou catarse tribal. Uma alternativa séria e vencedora, tão representativa dos valores da direita democrática quanto das aspirações do eleitorado.

 

Para isso convém aprender com os erros dos outros, a começar pelo erro de análise do Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas.

 

Na greve de Abril, o Governo foi apanhado de surpresa e, depois de num primeiro momento tentar sacudir a água do capote dizendo que se tratava de um conflito entre privados, lá interveio de modo a poder glorificar-se com o mérito da solução do diferendo. Evidentemente, não houve solução nenhuma: houve apenas um simulacro de acordo entre trabalhadores e patrões, que mais não era do que um adiamento das negociações e da greve.

 

Daqui, o sindicato extraiu três ilações. Primeira: o Governo teria tanto receio de um país em pantanas que faria qualquer coisa para evitar ou terminar rapidamente com uma eventual segunda paralisação, em especial durante as férias e a dois meses das eleições. Segunda: numa repetição da greve o Governo estaria obrigado a escolher um dos lados, porque aí já não seria possível continuar a empurrar o problema para a frente com outro falso acordo. Terceira: o Governo escolheria o lado dos trabalhadores, pressionando a ANTRAM a aceitar as reivindicações.

 

Afinal de contas trata-se de um Governo socialista, no qual a "ala esquerda" do PS tem poder efectivo, apoiado pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista (que controla os principais sindicatos) e com o qual o povo de esquerda anda aparentemente felicíssimo. Aliás, nunca alguém à esquerda foi visto a contestar a justiça das reivindicações dos motoristas.

 

O sindicato, porém, não viu bem o filme que lhe estava a passar à frente dos olhos. O PS preocupa-se mais com os votos e o poder do que com os trabalhadores, e esta crise foi mais uma oportunidade, como a dos professores, para colonizar o eleitorado do centro e do centro-direita. Daí que o Governo tenha de facto desejado esta greve, para erguer o pulso firme da sua bandeira contra os perturbadores da ordem pública.

 

Mesmo a tal "ala esquerda do PS" já só é um slogan de marketing, depois de uma governação baseada no défice zero, em recordes mínimos de investimento público e recordes máximos de tributação indirecta regressiva, no esmagamento de lutas laborais como a dos motoristas ou dos enfermeiros e nas alterações às leis do trabalho viabilizadas pela direita.

 

Além disso, os sindicatos tradicionais, com medo do esboroamento do seu poderzinho, também contribuiriam para o isolamento dos motoristas. E, quanto ao mais, lá tivemos o fatal Prof. Boaventura a avisar que o Dr. Pardal é o rosto do fascismo e a Sociedade Portuguesa de Autores (sim, a Sociedade Portuguesa de Autores) a comportar-se como uma direcção-geral do PS, vergastando os pobres dos grevistas em comunicado e mostrando que em Portugal aquilo que passa por "sociedade civil" às vezes é só um concurso de sabujice do poder.

 

A lição principal de tudo isto para a direita é que o PS tem um projecto de poder hegemónico e que parecer de esquerda ou de direita é uma preocupação contingente, subjugada àquele objectivo. O PS quer eternizar-se como "o partido natural de governo", o centro pragmático, inevitável e inamovível, entre a direita e a esquerda radical.

 

E a direita, se quer combater esse projecto, tem de perceber que tem de o fazer nesse plano, em vez de se remeter a um canto identitário, desfasado do sentimento popular maioritário. Não é só uma questão de sobrevivência da própria direita. É o país que está em causa. Porque o PS só quer falar ao instinto das pessoas de centro e direita. Não quer fazer aquilo que é preciso mesmo fazer. Para isso, só os partidos da direita podem estar política e ideologicamente preparados.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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