Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 17 de outubro de 2019 às 19:35

Uma nova “nova normalidade”

Teme-se ter chegado a uma situação em que as grandes tendências económicas como taxas de juro negativas e globalização implicam choques tectónicos na economia tão fortes que forçam a mudança ou redesenho do quadro das políticas económicas.

Nas últimas semanas, principalmente após os anúncios pelo Banco Central Europeu (BCE) e Reserva Federal (Fed) de retoma ou aprofundamento das medidas expansionistas de política monetária, intensificou-se a publicação de artigos na imprensa internacional dedicados à persistência de taxas de juro negativas, aos limites da política monetária ou à necessidade de repensar os instrumentos de política económica.

O contexto económico atual desafia alguns dos conceitos tradicionais da teoria económica e do senso comum. Todavia, a evidência empírica aponta para a permanência ou trivialização das presentes circunstâncias. Há mais de uma década observa-se a queda da taxa de desemprego, sem que os salários cresçam significativamente ou que a inflação acelere. As taxas de juro encontram-se em território negativo, embora o investimento continue sem dar sinais de aceleração assinaláveis ou os níveis de poupança global de redução. A intensificação da discussão sobre o possível esgotamento dos tradicionais instrumentos de política económica decorre da aglomeração de indicadores de abrandamento económico.

 

A globalização parece desempenhar um papel central no atual estado da economia mundial, designadamente pelo facto de as cadeias globais de oferta não refletirem, na maior parte dos casos, as condições do mercado laboral local. E a globalização terá tido um efeito mais profundo nas dinâmicas económicas do que previsto, na medida em que foi mais acentuada e mais rápida que o projetado e agora estará em retração, deixando marcas pronunciadas no mercado de trabalho nomeadamente das economias desenvolvidas, onde os trabalhadores em indústrias manufatureiras foram mais afetados que outros, gerando aumento de assimetria de rendimentos ou desigualdades.

 

Teme-se ter chegado a uma situação em que as grandes tendências económicas como taxas de juro negativas e globalização implicam choques tectónicos na economia tão fortes que forçam a mudança ou redesenho do quadro das políticas económicas. Neste âmbito, tem-se destacado a Moderna Teoria Monetária. A ideia não é particularmente inovadora, na medida em que consiste na constatação de que a política monetária, encostada aos seus limites, pouco pode fazer sozinha, carecendo de complementaridade de outros instrumentos, designadamente: maior impulso produzido por estímulo fiscal, particularmente ao nível de investimento público, potenciador de acréscimos de produtividade (uma realidade que tem eludido a recente retoma económica), ou esquemas de proteção social como seguro de desemprego ou rendimento básico.

 

O enquadramento económico presente, por exemplo por via das taxas de juro negativas, põe em causa as decisões de investimento, tornando qualquer investimento justificável devido ao seu baixo custo de financiamento, e de poupança - desincentivando-a. O motor económico baseado na ideia de antecipação de consumos, que ajudou na resolução da crise, prolonga-se. Contudo, apesar dos incentivos, a procura permanece condicionada. O investimento e consumo privado e público encontram-se relativamente estagnados. Gillian Tett, num artigo recente no Financial Times, com base na sua experiência no Japão (país que já terá testado todas as alternativas disponíveis), oferece uma tentativa de justificação para a persistente incapacidade de as medidas económicas, nalguns casos extremas, não produzirem os resultados esperados: a incapacidade de quebrar um ciclo de expectativas negativas ou a falta de confiança dos agentes económicos.

 

A mera existência de uma nova normalidade é perturbadora. A globalização, a demografia, as migrações, a digitalização, as novas tecnologias, o aumento da desigualdade, a incapacidade de previsão da idade de reforma, a alteração do modelo contratual dominante no mercado de trabalho: o mundo a que nos habituámos está em rápida convulsão e a incerteza gera desconfiança. A desconfiança é péssima conselheira da tomada de decisão, seja de investimento ou consumo. As taxas de juro negativas justificam-se pela necessidade de criar repressão financeira de modo a gerir o elevado endividamento global, podendo prolongar-se no tempo; mas, criam desconforto e sensação de cobaia numa experiência. Impõe-se, então, repensar as políticas económicas e os respetivos instrumentos para promover a confiança dos agentes económicos - por exemplo, para reenquadrar o contrato intergeracional, ou o papel do mercado de trabalho ou do sistema financeiro. Noutra dimensão, como tem sido observado recentemente, exige-se igualmente a redefinição ou clarificação das funções dos políticos (política orçamental) e dos tecnocratas (política monetária), estabelecendo eventuais novas fronteiras e áreas de intersecção. O novo desenho das regras ou o desenho das novas regras deve ter como principal preocupação restaurar "a presença de um chão debaixo dos pés em vez de areias movediças", fazendo os agentes económicos acreditar que existe um módico de estabilidade assegurado, e que, portanto, vale a pena correr riscos - investindo e consumindo melhor.

 

Economista

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